Dia #4: Chaiten



►Que noite! Péssima, uma gritaria no camping, pessoas que não respeitam estão em todos os lugares. Não conseguia dormir, quando fui deitar-me ainda eram 21h, estava sol e é muito esquisito dormir ao dia. Escureceu totalmente por volta das 22h30, daí gente falando alto, tropeçaram na minha barraca, um horror. Dormi um pouco, mas já acordei logo, por volta das 5h, pois já havia amanhecido. Comecei a arrumar minhas coisas, fiz um café e comi dois pães com geleia. Estava cagado, não tinha tomado banho, praticamente uma merda sobre duas rodas, fedendo. Sabe quando você pisa na merda do cachorro na rua e se sente enojado, era eu! Estava também preocupado com meu joelho esquerdo, o dia sem pedalar de ontem foi estratégico também. Eu me entupi de remédio, alonguei o dia todo, não estava a fim de pedalar com dor. Acordei com dor nível quatro da escala Giraventura de um à dez. Fiquei um pouco desconfiado, mas fazer o que, encarei. Depois de arrumar tudo e verificar dez vezes se não tinha deixado nada pra trás, parti. Dia frio, úmido e estrada enlameada. O rípio parecia argila. Sabe aquelas massas cinzentas que brincávamos quando éramos crianças para produzirmos grandes obras de arte como cinzeiros e cobras? Lembrou-me isso! Meu objetivo? 55 km até Chaiten. Que dureza! A estrada hoje judiou. Era um cascalho completamente desuniforme, arenoso, escorregadio. Sapatilha aqui, nem pensar, um convite para cair de boca. Nos primeiros dez quilômetros, conseguia desenvolver mais do que 8 km/h de média, acreditem. Nesse ritmo, ia demorar pelo menos umas sete horas para chegar a Chaiten. Meu joelho esquerdo ainda doía, porém menos do que ontem. Ainda estava muito preocupado com ele, mas conforme eu evoluía na pedalada, aos poucos fui esquecendo dele e, incrível, a dor foi passando. Não sabia se eram os remédios ou o excesso de preocupação. Era como se ele dissesse para mim: “deixa-me em paz, cara, veja aí outras coisas, desencana um pouco de mim”. Tive a impressão que eu o sufoquei e me senti culpado. Sabe quando você exige demais de alguém numa relação? Tá aí, o que eu odeio que façam comigo, eu fiz com ele! Quando eu o deixei livre, ele voltou a ser ele mesmo. Não teve muita atração na estrada hoje, era um estrada sem fim com subidas e descidas de até 8% e nada em volta, só mato. Num momento cruzei com um grupo de ciclistas que estavam parados, acho que uns dez, cumprimentei-os e continuei.O que mudava num piscar de olhos era o tempo. Que coisa maluca, saí com frio, daí fez calor e tirei o casaco. Ficou frio de novo, coloquei o casaco. Daí garoou forte, tirei o casaco e coloquei a capa. Daí parou a garoa e fez calor, frio depois. Parece que é uma coisa que vai me testando o tempo todo, haja resiliência! Havia muitos campings públicos pelo caminho e num determinado momento, passei em frente a um sendeiro que levaria ao vulcão Chaiten, que despertou em 2008, depois de um sono de dez mil anos. Ao seu redor, quase onze anos depois, a vegetação ainda destruída, parecia um cenário de guerra. Não parei no sendeiro, não me atraiu, lotado de turistas sedentos por selfies, continuei ao meu objetivo. Pedalei mais um pouco e quando vi, faltando vinte quilômetros para Chaiten, não acreditei, parecia miragem: asfalto. Ah, como é bom pedalar no asfalto, o joelho, o corpo, a mente, todos agradecem. Ficou muito frio nesse final, com longas subidas e descidas íngremes. Tudo o que o corpo aquecia na subida, congelava na descida. Enfim, cheguei a Chaiten. Chaiten, uma vila aberta, tão aberta que venta muito. Já fui entrando e procurando lugar para ficar com uma condição a qualquer preço: banho quente. Passei em frente à casa de uma senhora e perguntei a ela, que me disse, que arrendava quartos. Falou que tinha banho quente, Wi-Fi e café da manhã pela bagatela de quinze mil pesos. Razoável, pois ontem não gastei nada. Subi, arranquei minha roupa e fui ao banho e a primeira providência foi, sem dúvida, lavar a bunda. Ah, como é bom lavar a bunda, parecia que tomava um banho de Cândida, a água saía marrom. Saí para almoçar e hoje, depois dos meus pratos, eu me dei ao luxo de comer um salmão com arroz e batata cozida. Voltei ao alojamento, fui até a praia, tirei algumas fotos. Passei no mercado e a dona, uma senhora, falou-me que meu espanhol está excelente, oba! Concentrar para amanhã tentar continuar até Vila Santa Lúcia, no trecho mais longo até então, 76 km. Será que dá? Amanhã, o Garmin Inreach®️ vai denunciar-me! Vai lá e vê: www.sharegarmin.com/giraventura


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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