Dia #3 - Caleta Gonzalo



►Choveu a noite toda e quando acordei às 7h, ainda continuava. Desci para tomar café da manhã e havia um casal senhores de franceses no refeitório. Aproveitei para desenferrujar o idioma. Contei-lhes sobre minha trajetória de Dunquerque à Barcelona e a reação sempre é de espanto. Minha ideia hoje era chegar em Caleta Gonzalo e, para tal, havia duas opções. A primeira era pegar duas balsas, às 10h30, e pedalar uns 10 km no rípio. A segunda era sair 9h, ir direto de barco numa travessia de cinco horas. Optei pela primeira, mesmo sabendo que o joelho não tinha se recuperado apesar dos comprimidos e do alongamento. Demorei para sair e acabei chegando na rampa de embarque exatamente às 9h, horário da segunda opção. Olhei para a balsa e mamãe cochichou para embarcar imediatamente. Corri para comprar o bilhete e embarquei. Estava muito frio de manhã, o termômetro do anemômetro marcava oito graus. Subi na parte de cima da balsa, mas estava bem protegido do frio, fiquei praticamente o tempo todo da travessia do lado de fora, tirando fotos e observando o mar. O ar gelado do mar entrava pelas costuras do casaco. Ainda assim, o simples prazer de respirá-lo, não me deixava arredar o pé dali. Travessia cansativa e, depois de 85 km de mar e desembarquei em Caleta Gonzalo às 14h. Sabia que havia um camping, mas pensava que também existia uma cidade, mas não. Entrei no camping e fiquei impressionado com a organização e infra estrutura. Só não havia banho quente, mas afinal, quem precisa de banho hoje, não é? Procurei um responsável pelo camping, uma recepção, qualquer coisa, não achei. Foi então que vi um casal de franceses montando a barraca. Fui conversar com eles e eles me disseram que o camping era público, por isso, achavam que seria gratuito. Que bom, armei minha barraca, encostei a bike e hasteei a bandeira do Brasil para marcar território. Peguei minha comida para o almoço, estava com muita fome. O prato seria ravióli com carne e ricota, um lata de sardinha, suco de saquinho e de sobremesa uma barra de chocolate com proteína. Acho que dessa vez, estou acertando mais a alimentação. Fogareiro muito bom, esquenta a comida rapidinho, em quinze minutos estava tudo pronto. Começou a chegar mais gente, só gringos. Um jovem de Bilbao veio conversar comigo. Era uma garoto, contei-lhe do projeto, ficou maluco. Quando se foi, eu o ouvi contando a minha história aos amigos dele. É muito bom influenciar jovens dessa maneira. Arrumei minhas coisas e saí para tirar fotos. O camping é lindo, tem trilhas e passa um rio ao lado, que desemboca no mar. Fui para as pedras e por lá fiquei. É lindo estar aqui, mas não estou deslumbrado, tento viver o momento, o momento que quando olhamos, virou passado. Não estou ansioso para viver tudo de uma vez, acho que é a experiência. A sensação é só de bem estar e como acreditavam os gregos, acho que aqui é o meu lugar. Voltei à barraca. São 19h30 e tenho mais duas horas de dia. Ainda sim, vou para meus aposentos, para a barraca, na primeira noite ao relento. Daqui a pouco, hora de dormir. Boa noite!


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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