Pirineus - parte III - Fronteira / Les Planes Hosteles


►O dia não vai ser fácil, pensei assim que acordei. Não foi! Saí de Prats um pouco tarde, já eram 10h, arrumei minhas coisas desci, olhei para a bike e estava lá, o pneu murcho. Sem saco de procurar o furo e remendar, joguei a câmara no lixo e coloquei uma nova, simples assim. Coloquei os alforges na bike, levei dois litros de água, fiz o check final e estrada. Um último olhar para trás e um adeus à última e simpática vila francesa dos Pirineus.


Eu já sabia, que ia ser a montanha logo de cara, sem dó, subida a 1 km de onde eu parti. Na entrada da subida, a informação fatal, Col d'Ares, o objetivo principal de hoje, chegar aos 1.530 m de altitude na divisa da França e Espanha.


A cada quilômetro, uma plaquinha informava a declividade e a quilometragem, eram 14 km até lá. Já começou forte, 6%, tentei manter a cadência em primeira marcha sempre, mas a perna doía muito. E assim foram se passando os quilômetros até atingir o primeiro col, o Col de la Seille, 1.185 m de altitude. A partir dali, inclinou mais, chegou a 10%, parei, com a camisa encharcada de suor, ventava frio, mas não teve jeito e comecei a empurrar ladeira acima, queria descansar um pouco. Aos poucos ia subindo e um nó na garganta às vezes desatava e começava a chorar. Passava um filme na minha cabeça, comecei a lembrar de todas as pessoas que cruzei, de todas as amizades que fiz e de todos que me ajudaram. Voltei a pedalar, e a mais ou menos 3 km do cume, comecei a sentir câimbras. Primeiro uma fisgada numa panturrilha, parei. Desci, caminhei e senti a outra, deitei no chão, alonguei; olhava para o céu coberto por um nevoeiro espesso e pedia para a minha mãe me ajudar naquele momento. Fiquei ali parado uns cinco minutos. Levantei e falei para mim mesmo, agora eu terminar essa merda. Subi na bike, engatei a segunda marcha e comecei a pedalar de pé, fazia muita força, parecia que a corrente ia estourar, mas mantive o ritmo. A quilometragem foi diminuindo, inversamente proporcional a dor, não tomei conhecimento, queria chegar. Olhava para o asfalto pois quase não tinha visibilidade tamanho era o nevoeiro. Entrei no quilômetro final, continuei na cadência, zerei a volta do GPS e comecei a contagem regressiva em metros. 800, 700....400, 200, 50 metros. Cheguei ao Col d'Ares às 13 h do dia 24 de setembro de 2018, sentei no chão completamente molhado e me pus a chorar. Do meu lado direito, a França, do esquerdo a Espanha, nunca imaginei como seria esse momento. Coloquei meu corta vento, estiquei a bandeira do Brasil, aquela mesma que eu levo em todas minhas jornadas e tirei a foto oficial; não achei que fosse ser tão difícil.


Não dava para ficar muito tempo lá em cima, estava um gelo. Peguei meu casaco, me cobri todo e desci 10 km até a primeira cidade da Espanha, Mollo. Bandeiras da Catalunha e dizeres para soltarem os presos políticos espalhados por todos os lados.


Parei num restaurante para comer algo e me recuperar um pouco. Pedi para o garçom uma Coca-Cola. Ele não entendeu, quer dizer, eu não tinha virado a chave do idioma, aqui se fala catalão como primeira língua e espanhol como segunda. Demorei um pouco para assimilar isso, é muito estranho você pedalar 25 km e mudar de idioma. Comi algo e voltei à bike, só ladeira abaixo, mais 30 km de descida, peguei uma carreteira bem movimentada, não era para estar ali, mas fui. Túneis, o primeiro com 1.800 m de extensão, não me arrisquei, empurrei a bike pela calçada de um metro túnel adentro, estava valendo tudo.


Voltei para estrada, mais túneis, menores, desprezei, olhava para trás, via se não vinha carro e acelerava dentro dos túneis. Entrei na Zona Vulcânica de La Garrotxa, mais precisamente pela vila de Olot, já estava muito cansado. Faltavam vinte intermináveis quilômetros para alcançar a vila de Les Planes d'Hosteles, 83 km depois e 1.150 m de altimetria. Cheguei na vila, havia uma festa na cidade, todo o comércio fechado. Parei uma senhora na rua, ela me indicou um camping. Fui até o camping, fechado, toquei a campainha de uma casa na frente do camping. A mulher atendeu, muito generosa me deu número da dona. Liguei para ela e reportei minha situação, ou seja, fudido. A mulher abriu o camping para mim, um camping enorme com vários bangalôs; ela me arrumou um deles só para tomar banho e descansar. Descarreguei a bike e fui atrás de comida na cidade, tudo fechado, havia uma festa num estacionamento, entrei na festa e vi uma barraca de churros e decidi que isso ia ser o meu jantar.

Voltei para o bangalô, banho e descanso. Amanhã, vou até Teià, a 80 km daqui, encontrar um amigo catalão, Eduard, vamos passar o dia juntos. Aqui é o fim do Merdiano Verde. Antes vou passar em Vilassar de Mar, preciso botar o pé no mar, ver o Mediterrâneo novamente.

Depois de Teià, estarei a 21 km do meu final, que é na Sagrada Família de Gaudí. Se estou feliz? Sim, muito e descrevo a minha felicidade nas minhas palavras de uma reflexão de Mario Sergio Cortella, gentilmente enviado pela leitora Vanessa Guerra. O que é ser feliz?

"A palavra "feliz" é felix, que também significa fértil. Felicidade é sinônimo de fertilidade. Fertilidade não é apenas gerar outras pessoas. Fertilidade é impedir que a vida cesse na sua múltipla condição. Fertilidade é impedir a desertificação dos nossos sonhos. Fertilidade é fazer que não haja a esterilização do nosso futuro. Ser feliz é sentir-se fértil."

Boa noite!


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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