Pirineus - parte I - Saint-Paul-de-Fenouillet


►Saí de Carcassonne hoje pela manhã com um objetivo, nada me atrapalharia chegar à Saint-Paul-de Fenouillet, nem os 85 km, nem os 1.300 de desnível, nem o calor e nem minhas pernas que já estão bem judiadas. Planejei cidades estratégicas como ponto de abastecimento de água e comida e ainda assim levava comigo, pães e geleia para me dar força morro acima. A estratégia funcionou, cumpri a primeira das três etapas nos Pirineus e cheguei a Saint-Paul-de-Fenouillet às 16h45 depois de oito horas na estrada.

Saí de Carcassonne e passei por várias estradinhas pequenas e povoados minúsculos. Aos poucos, reparava que as placas agora também estavam escritas em francês e espanhol. Tirei foto dela por fora e descobri que eram 55 Euros para a visita, dei meia volta. A estrada não deu trégua em momento algum, foram 60 km de subida, para a minha alegria com coeficiente de 3% a 4%, às vezes tendia a 6%, ou seja, dava para aguentar bem. Parei para um lanche em La Tuilerie, numa boulangerie bio, vi da estrada, achei curioso. As boulangeries daqui são um perigo, as tortas de todos os tipos de frutas fazem-me salivar só de olhar de longe. Peguei uma torta para levar, uma Cola bio e um tipo de um quiche que queijo e presunto, mas fechado - carboidrato pruro, mandei para dentro. Guardei a torta para um momento especial. Continuei a pedalada quando no quilômetro 45, vi um ciclista de speed. Passei ao lado dele, ele me parou e começou a conversar comigo. Daí foi aquele assunto, de onde eu vinha, quem era e para onde ia. Cinco minutos de conversa foram suficientes para ele me fazer encostar perto de um bar e chamar um desconhecido para tirar uma foto comigo. Alex Durand o seu nome, 61 anos, ficou encantado comigo e propôs gravar um entrevista, queria falar, aparecer no blog. Achei curioso porque normalmente os franceses são bem retraídos nesse aspecto. Na rápida entrevista que vocês podem assistir abaixo, Alex se encanta com a minha bicicleta que deve valer pelos menos umas 5 vezes menos do que a dele, prova que o valor não está ligado somente ao custo das coisas.


(Nessa entrevista, Alex fala que habita ao departamento de Aude, diz que aprecia muito esse departamento, que me encontrou e soube que vinha de muito longe, com uma bicicleta de 30 kg comparada com a pequena bicicleta dele, falou que tira o chapéu para o meu feito, que adora esse departamento pois ele é muito diversificado e que ele ama a França porque a França é linda, despedidas....)

Muito, muito bacana, o reconhecimento de um desconhecido, conversamos mais um pouco e nos despedimos. Feitas todas as fotos e a despedida, segui rumo a Saint-Hilaire, onde havia uma abadia famosa. Pela bagatela de 55 Euros podia-se entrar e conhecê-la, dei meia volta para tirar só as fotos por fora.



A viagem continuou e com 50 km finalmente entrei nos Pirineus, arrepiei, era um momento muito especial para mim. Ao meu lado um banho romano, prova que os romanos também já tinham passado por aqui. Parei para tirar foto quando passa Alex, o ciclista, com uma turma de mais cinco subindo a montanha.​ Mais um tchau nessa despedida sofrida da França.

Continuei a minha jornada e uma longa subida passando pela vila de Alet-les-Bains, já com a maravilhosa, alta, encantadora, não estava de verde e sim de branco, me olhava e me recebia de braços abertos. Com os olhos completamente cheios de lágrima subi com a perna esquerda pedindo arrego. Os carros e as motos passavam por mim e me olhavam naquela situação com aquela vontade de me ajudar.


Pedalei, subi e pedalei mais até ver a última rampa que me levaria ao , me levaria ao Col du Linas, que foram os 667 m mais sofridos que passei na viagem. Alet-les-Bains tinha ficado para trás, a França estava lentamente virando passado.



Daqui para frente, me restaria uma longa descida e aos poucos a penetrei e vivi uma das mais lindas experiências que da minha vida. Ela não é só linda e alta, ela é forte e também geniosa. Sua força se traduz no vento que me empurrava para lá e para cá, como quem diz: quem manda aqui sou eu. Numa estradinha bem pequena, a qual os carros se espremem para passar um por vez, o barulho era ensurdecedor. Pedras caiam de cima e eram ancoradas pro redes de proteção . Medo, pedalava longe da beirada, afinal não se brinca com ela. Mesmo assim digo que fui muito bem recebido, tiramos fotos juntos e vivemos um momento muito especial que terá continuidade amanhã. A vida segue assim, vivendo as emoções de um presente recente que já virou passado, mas que já está guardado na minha memória. O futuro é só uma previsão. O que esperar dela? Não sei! Mais compreensão? Mais carinho? Confesso que tenho medo de querer colocar suas garras de fora e bater de frente comigo. Sei que sou um nada, apenas um homem apaixonado, mas mesmo assim vou abaixar a cabeça e encarar e mostrar o porquê estou aqui, talvez ela não saiba o que estou buscando, mas posso falar a ela em alto e bom som: sou um simples homem em busca do meu amor perdido! Vamos sair amanhã cedo?













Saint-Paul-de-Fenouillet me esperando e abaixo já bem instalado em frente a igreja matriz



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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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