Carcassonne e o nosso tempo perdido


►Nunca menospreze alguém que te falou que pedalou 20 km, 10 km. Hoje eu pedalei meros 48 km, parece nada né, mas talvez tenha sido o dia mais difícil da jornada. Ficar oito horas, às vezes dez horas na estrada pode ser sim, por meros 48 km.

Comecei o dia com o GPS me enganando e me mandando para uma trilha de caminhantes e para chegar até ela subi 100 m morro acima. Tempo perdido, desci e fui pela estrada, subi tudo o que já tinha subido embaixo de um calor de 40 graus. Morro acima foram mais 700 m, como se eu tivesse subido a Via Anchieta, de Santos à São Paulo. No final do morro encontro um ciclista francês que parou para conversar e vendo o meu estado extenuante, me propôs para num lago no final da subida. Alain Vidal seu nome, mais um cara gente boa que conheço na minha rota rumo à Barcelona. Foi bom para mim, se não fosse Alain, não teria forças para subir mais um pouco e conhecer o Lac de la Prade Basse; um colírio para os olhos e uma pausa para aliviar a dor nas pernas e esquecer dessa coisa chata de tempo absoluto inventado por nós.


Alain Vidal acima e o Lac de la Prade Basse abaixo


Continuei até Carcassone, realmente não era muito longe, mas cheguei extenuado. Achei uma chambre d'hôte que seria mais ou menos como uma pensão no Brasil. A Clô, a dona, me permitiu ficar aqui por dois dias para me recuperar. Cheguei, tomei um banho, deitei e dormi pela primeira vez numa tarde. À noite saí para comprar a minha janta, voltei e encontrei um casal de holandeses, John e Monique. Ficamos conversando por muito tempo, não sei dizer, pois hoje eu perdi a noção dele e você saberá porque na história que vou contar abaixo.

Sabe, todos os dias quando acordo não consigo me recordar do dia anterior, não tenho mais o tempo que passou porque penso que o tempo é muito relativo da percepção de cada um, mas tenho muito tempo, aliás, temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir eu escrevo a minha história, às vezes mais existencial, às vezes mais poética e na minha cabeça é um vai-vem, lembro e esqueço como foi o dia. Para que isso, o importante para mim é ir sempre em frente, afinal você há de concordar, não temos tempo a perder. Cada lágrima que cai dos meus olhos quando me emociono é o que eu chamo de nosso suor sagrado. Diga-se que é bem mais belo que esse sangue amargo de falta de amor, carinho e compreensão que percorre o nosso mundo. Sério e tão sério, muitas vezes agressivo e selvagem, selvagem, selvagem! Veja o sol dessa manhã tão cinza que engana porque a tempestade, o rancor que às vezes chega é da cor dos seus olhos castanhos. Vem comigo até Barcelona, você não sabe como é importante, então me abraça forte, me sente com você e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. O tempo é percepção então temos nosso próprio tempo, temos nosso próprio tempo, temos nosso próprio tempo. Não estou sozinho nessa jornada, você sabe, não tenho medo do escuro, mas mesmo assim deixe as luzes acesas, agora. O que era para ser já foi e o que foi escondido é o que se escondeu. Ouvimos promessas de todos os lados, né, e muitas vezes quando você pergunta ao outro o que foi prometido, a resposta é que ninguém prometeu, nem foi tempo perdido. Trilhe você o seu próprio caminho, independente da minha ou da sua idade, pense que somos tão jovens, tão jovens, tão jovens. Vem junto comigo até Barcelona, vai?

Agora clique aqui e veja quem me ajudou a construir essa história tão linda.

Boa noite!


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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