Mauriac / Vitrac / Tempo


►Olha eu de novo aqui, depois de um dia sem escrever, de volta. Complicado isso porque as coisas são tão intensas aqui que eu acabo até esquecendo do que aconteceu ontem, mas consegui resgatar pelas fotos.

Dando continuidade à linha do meridiano de Paris, das duas cidades que planejei nenhuma aconteceu.

A história de ontem começou com a análise da altimetria do percurso logo quando eu levanto. Como de costume, faço o mapa de navegação até a cidade que desejo chegar. Então, decidi parar antes de Mauriac, pois o percurso era longo, 94 km e porque tinha uma subida muito forte, em torno de 8% antes de chegar em Mauriac. Imaginei que pudesse parar numa cidade antes. Saí tarde, 11h, da casa dos escoceses que passei a noite, fui muito bem recebido, ele me ofereceu um excelente café da manhã e me permitiu levar um sanduíche para o meu lanche. Tiradas as fotos e feitas as despedidas rumei sentido sul novamente com o objetivo de parar talvez numa cidade chamada Liginiac, pelo menos 30 km antes da temida subida de Mauriac. Passei por uma vila grande, Ussel, estava adiantado, ontem minha média horária estava alta, estava querendo pedalar. Depois dessa cidades, as vilas começaram a ficar menores e comecei a atravessar novamente campos e grandes fazendas de gado.


Alcancei Liginiac, não havia ninguém na vila para dar informação. Avistei um albergue, parecia vazio, mas toquei a campainha. Falei com a dona, lotado. Perguntei a ela onde poderia achar um mais próxima e ela me disse que não conhecia, me deixou na mão. Dei meia volta e ainda com medo da subida de Mauriac, resolvi dar uma volta pela vila para achar três coisas importantíssimas, uma tomada para carregar meu GPS, um banheiro e um lugar coberto para estender a rede e dormir ali mesmo. Os dois primeiros eu achei. Achei fácil uma tomada num restaurante com varanda que estava fechado e achei um toalete público ao lado de uma quadra de basquete. Infelizmente, rodei, rodei e não achei o canto coberto, fui até a igreja, prefeitura, rodei, rodei e nada. Decidi então usar o toalete, carregar meu GPS e seguir viagem. Para ficar tranquilo, lembrei de um dos ensinamentos de Agostinho, filósofo do século IV DC. Agostinho afirmava que o homem inventou esse tempo cronológico, que não existe passado, nem futuro; o que existe é um presente o qual projetamos nele lembranças do passado e prováveis acontecimentos do futuro. Concluindo, dizia que o tempo não existe de forma absoluta, que esse tempo do relógio é mera invenção do homem, assim o tempo é relativo para cada um; assim, um exemplo, os 30 minutos do relógio podem passar mais rápido para mim do que para você, vai depender da percepção de cada um. Esse estudo filosófico de Agostinho me fez lembrar que eu não deveria estar preocupado com o tempo absoluto de viagem e sim com o percurso. Dessa forma, decidi continuar despreocupado com o tempo e me concentrando em realizar o percurso que defini. Agora você perguntaria, mas se a noite chegasse e eu estivesse ainda na estrada? Bem, se a noite chegasse é futuro, e eu queria viver o presente, então eu parti. Comecei a pedalar e estrada aparentemente era boa, sem muito desnível. No quilômetro 70, uma surpresa, uma tremenda ribanceira me levaria 300 m morro abaixo para um dos lugares mais lindos que vi nessa viagem, a Pont des Ajustants, uma represa enorme rodeada de árvores e com túneis e pontes.


Acima e abaixo a represa "La Triouzoune"


Parei, fiquei admirado. Meus ouvidos tamparam tão grande foi o desnível altimétrico que alcancei. Continuei, passei um túnel e uma ponte. Mais a frente outra ponte estaiada, cortava a represa de um lado para o outro. Virei a esquerda e apareceu a subida de Mauriac. Não tive medo, encarei! Foram 354 m de desnível acima. Pelo asfalto se via escrito Froome, Bardet, ou seja, o Le Tour de France também já tinha passado por ali, isso me motivou. Nunca pensei se poderia chegar ou não em Mauriac, queria subir em ritmo cadente para não me contundir. Acabei a subida de 11 km e média de 3,5 % de inclinação a 5 km de Mauriac. Entrei na vila, fui à rua principal e já avistei uma placa escrita albergue, parecia miragem. Não acreditava que tinha chegado, muito menos feito tal façanha de pedalar 94 km com 1.228 m de altimetria. Já era noite quando entrei para tomar banho e comer algo no bar em frente ao hotel. Queria me recuperar, as pernas doíam muito, joguei uma ducha de água gelada nelas. Dormi, apaguei.

Levantei no dia seguinte, eram 8 h, nem preciso mais de relógio. Eu me senti mais confiante para alcançar Saint-Mamet-la-Salvetat, 64 km, 1.400 m de altimetria, ou seja, percurso mais curto do que o dia anterior, porém mais inclinado. Eu me sentia disposto, saí logo depois do café, confiante. Abaixo as montanhas de hoje:


A estrada estava muito suja, cheia de pedrinhas, ficava receoso com os pneus, mas após 2,5 h pedalando embaixo do sol, aconteceu. Numa subida, estourou a corrente quando mudei de marcha. A emenda foi rápida, a corrente estava seca, minha mão ficou imunda, continuei. Resolvi parar numa vila chamada Ayrens para tomar uma água e ficar um pouco na sombra. Ouvi um barulhinho no pneu traseiro, furou. As pedrinhas da estrada chuva entram nos sulcos do pneu e por mais que tente desviar, dessa vez não teve jeito. O furo dá mais trabalho, tira-se todos os alforges e procura o furo pelo ouvido mesmo. Um furinho mínimo, aquele que se não tivesse visto, teria me deixado na mão no meio do sol alguns minutos mais tarde. Fiz o remendo, enchi e continuei. Passei pela vila de Labontat onde uma senhora bem idosa me arrumou água. Continuei os sobes e desces passando por Ayrens, Saint-Paul-des-Landes até alcançar Saint-Mamet-la-Salvetat, 64 km depois.


Acima chegando em Saint-Mamet-la-Salvetat e abaixo um pouquinho da vila


​Um final matador com uma subida de 10%. Entrei na cidade, não havia uma alma, domingo, nem a informação turística aberta. Não achava albergues. Vi um bar aberto e fui até ele. Pedi uma Coca e a atendente veio conversar comigo. Falei que estava muito cansado e procurava um lugar para ficar. Ela se ofereceu para ligar para uma cidade vizinha onde havia um albergue, fiquei esperando numa mesinha no lado de fora. Voltou e me disse que achou porém a vila ficava a 6 km dali. Ainda me motivou: é descida! Parti! Não era só descida, tinha subida também, mas a quilometragem era baixa, ainda tinha forças. Cheguei no albergue, vários velhinhos, me sentia num asilo. O atendente perguntou minha nacionalidade. Depois que viu que eu era brasileiro, desembestou a falar português e que gostava muito do Brasil e Portugal. A essa altura, se ele falasse que odiasse Brasil e Portugal, eu ia ficar do mesmo jeito. Banho, ah, como é bom um banho. Deitar na cama, limpinha, wifi, poder estar aqui escrevendo esse texto a você. Por que damos valor a essas coisas só quando não as temos? Pois é, somos realmente incapazes de entender o que realmente é essencial para nós, do que realmente precisamos e o que desejamos manter, você sabe o porquê?

Eu perdi a minha mãe dia 2 de janeiro de 2018, ele teve que partir. Sinto muita falta dela, do apoio que me dava nos meus projetos, acompanhados com o puxão de orelha de mãe. Ela sempre foi essencial para mim, eu sempre soube o verdadeiro valor disso e apesar de ela não estar entre nós, aprendi com ela que só descobrimos o verdadeiro valor de tudo quando deixamos o coração aflorar o que realmente sentimos. Obrigado por tudo mami, sei que está comigo! Boa noite!


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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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