Le Croqs / Ah, Alice...


►Resolvi partir, ontem ainda estava na dúvida se passaria mais uma noite em Saint-Eloy d'Allier. Cheguei depois do jantar, escrevi o post do dia como de praxe e deixei o mapa de navegação do dia seguinte, não tinha cabeça para pensar em rota e destino naquele momento. Ainda escrevi o post, mas fui dormir em seguida. Hoje pela manhã quando acordei, resolvi seguir viagem. Talvez estivesse com medo de outra despedida, não sei. Encontrei o casal Therese e François logo cedo, tomamos café juntos. Pedi para tirar uma foto com eles, eles aceitaram, subi para pegar as minhas coisas e parti até um pouco tarde, 9h30. Foi doído, não posso negar, mas necessário.

Toda vez antes de subir na bike, sempre faço uma oração, peço proteção e começo a pedalar. Hoje também fiz isso, só que ao subir na bike fiquei parado uns dois minutos olhando para a longa estrada que me chamava em direção ao sul da França. Onde parar? Não planejei no dia anterior, lembra? Sabia que hoje o dia não seria fácil por conta das montanhas; por sorte o dia amanheceu nublado e com a temperatura em torno de 16 graus. Nos primeiros quilômetros ainda fiquei com a imagem daquele simpático e carinhoso casal na minha cabeça; aos poucos ela foi passando e essa foi sendo aos poucos substituída por coisas, figuras e placas que cruzavam o meu caminho como um filme em velocidade rápida. Num primeiro momento, parecia que estava sendo bombardeado de informações com o objetivo de me confundir mais, minha cabeça entrava em parafuso. O caminho de hoje foi o mais diferente de todos que eu percorri em todos os sentidos. A vegetação mudou completamente, muitas árvores na cor forte de verde musgo, gados, grandes pastos, fazendas e pessoas velhinhas esquisitas me olhando, parecia um outro filme. Como não tinha destino certo, pedalava rumo sul cruzando as montanhas.

De repente, veio a imagem de Alice No País das Maravilhas. Já li esse livro umas três vezes, a última no ano passado, antes de assistir a uma peça de teatro em dezembro último, a qual meu filho caçula protagonizava "O Chapeleiro". Sou fã da Alice, desde criança sonhava em perambular por mundos desconhecidos como ela. Há uma personagem nesse livro que é um gato que aparece e desaparece o tempo todo. Umas das vezes que ele encontra com a Alice, ela lhe pergunta onde dava aquele caminho por onde ela caminhava. O gato pergunta: "onde queres ir?" Alice responde que estava perdida e não sabia. O gato sábio responde: "oras, para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve".

Hoje, esses 85 km de montanha quiseram me testar, fiquei sem destino certo, e assim como Alice, todos os lugares talvez me serviriam, não? Só que aí começa a surpresa, a partir do quilômetro 50, depois de passar pelo lindo castelo de Chambon-sur-Voeize, viraria a direita para entrar num parque. A partir de lá, seriam pelo menos 30 km de penosa subida para atingir 680 m; já estava com 800 m de altimetria acumulada e as pernas começavam a doer; as imagens de coisas esquisitas que havia falado anteriormente voltaram a aparecer mais frequentemente. Diminuí um pouco o ritmo para dar uma aliviada na dor, respirei. Naquele momento, cruzei um gato rajado na estrada. Estava em frente a uma casa. Eu o vi de longe e achei que quando passasse de bike ao lado dele, correria de mim como todo gato faz. Fui me aproximando e ele ficou estático me observando. Olhava para mim com olhos de repressão, passei por ele, virei para observá-lo e ele tinha ficado ali parado no mesmo lugar. Olhei para dentro mim e comecei a achar que tinha passado da hora de fazer uma escolha. Parei em frente a um pasto, um pouco aflito tirei o mapa e descobri uma vila chamada Le Croqs que ficava no quilômetro 85; decidi ir para lá. Navegação refeita, fui para lá e o sobe, sobe, sobe, não acabava nunca. Lembrava da porra do gato que parecia ter debochado de mim, rindo da minha imaturidade com a situação e me chamando de idiota.


Acima o Castelo de Chambon-sur-Voeize e abaixo a mudança de paisagem para um verde musgo


Cheguei à Le Croqs, uma vila medieval. Subia a rua que dava acesso à vila e havia dois caminhos. Parei no meio deles. O GPS me mandava ir à esquerda, a placa indicando o Centre-Ville me mandava ir à direita. Era uma subida, escolhi o caminho da esquerda. Já bem desgastado, pedalei uns 100 m e vi uma senhora de cabelos brancos com um cachorro descendo a rua. Eu ia abordá-la, mas ela o fez antes, me cumprimentou e fez aquelas perguntas básicas, de onde vinha e para onde iria. Dei as devidas respostas, Dunquerque e Barcelona, como sempre veio o espanto. A senhora francesa se chamava Mireille, disse a ela que estava cansado e a perguntei se não conhecia um gîte ou algum local para eu tomar um banho e dormir. Ela falou que Le Croqs é muito pequena, que o turismo aqui estava decadente, não havia hotéis, mas ao lado da casa dela, o seu vizinho alugava quartos para andarilhos. Pediu para que eu a acompanhasse pois ela me levaria até ele. Apenas 300 m depois chegamos à casa dela, de porta com a casa do tal vizinho. Saiu o vizinho, um escocês meio desengonçado, a casa uma zona, cheia de coisas. Mireille se despediu de mim toda alegre e eu comecei a negociar com o sujeito em inglês. Falava rápido com aquele sotaque escocês fortíssimo, me mostrou o quarto que ficava no andar superior e me perguntou se eu tinha certeza que ficaria. Falou que poderia usar a TV e que tinha todos os canais de esportes da Inglaterra, como se eu tivesse interessado nisso. Naquela altura do campeonato, se ele me falasse para deitar lá no sofá e tomar um banho de esguicho eu também aceitaria, mas fechei o negócio por vinte Euros. Entrei no quarto, arranquei a minha roupa, tomei um banho quente na parte de cima e de chuveirinho gelado nas pernas para aliviar a dor. Coloquei uma roupa e fui na cidade comprar algo para jantar e café da manhã.


Acima e abaixo o Gîte de hoje


A grande lição de hoje foi sobre a coragem de optarmos pelos caminhos. Hoje, saí perdido, abalado por ontem, sem caminho, tinha apenas uma direção, talvez a do coelho branco. Algo me incomodava, não sabia o que, mas tinha que experimentar e o caminho me chamou, me testou. Nesses duríssimos 85 km de hoje, deixei minhas angústias pelo caminho, doeu fisicamente e emocionalmente, olhei para mim e aos poucos fui voltando a se aproximar de mim, a me entender; voltei a ser eu mesmo, alguém que sabe o seu caminho. Agora estou bem, ainda muito emocionado com o dia, mas rindo do gato, pois foi a partir do seu ensinamento "para quem não sabe seu caminho, qualquer caminho serve" que eu descobri que tenho o meu. Boa noite!


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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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