Cheguei à Paris


►Dormi muito bem, apesar do hotel ser um lixo. Fedido e cheio de baratas, era o que tinha para o momento. Acho que talvez mesmo nessas circunstâncias, tenha sido um dos melhores banhos que tomei nos últimos tempos. Tá aí uma coisa que pega, só damos falta de algo quando não o temos mais, puramente platônico, mas real. O prazer de tomar um banho quentinho foi imensurável. Acho que deveríamos dar mais valor às coisas mais simples da vida, pois essas sim, que nos fazem felizes. Somos um bicho que adora transformar tudo que encontramos em rotina, assim alguns dizem que a rotina é a grande vilã da felicidade. Eu não concordo com essa ideia, acho que existem dois tipos de rotina, a boa e a ruim. Na minha opinião, o que mata é a rotina ruim e isso vem de encontro diretamente com aquilo que você faz rotineiramente por pura obrigação. Perdi meu pai e minha mãe recentemente e vi que se é possível tirar algo positivo da morte, quem diria de uma rotina ruim. Se sua rotina é ruim, tente pelo menos achar um momento bom dentro dela, sua vida vai melhorar.

Assim, falando de rotina, fui para a minha rotina diária logo de manhã, fazer mapa de navegação, preparar alforges para saída. Troquei o pneu e descobri que uma pedrinha minúscula o furou como se fosse uma agulha. Passei num posto de gasolina para terminar de calibrar, uma vez que haja braço para colocar 45 libras de pressão. Pela bagatela de um Euro, você utiliza a bomba pneumática, lembrando que a medida de pressão na Europa é em bar, diferentemente da brasileira, psi. Logo, meti 3,1 bar em cada pneu.

Segui viagem, o tempo estava nublado, vento a favor, apareciam de vez em quando algumas nuvens escuras no céu mas logo em seguido o sol brilhava novamente. A rota começou com muitos sobes e desces mas sentia que estava vem fisicamente e as marchas estavam trabalhando perfeitamente.

Pelas minhas contas pedalaria 90 km hoje, uma vez que os meus anfitriões de Paris não moram exatamente na Grande Paris, moram em Vitry-sur-la-Seine, um bairro mais afastado. Marquei para chegar na casa deles as 18 h e fui tentando controlar o tempo de percurso para não adiantar muito nem atrasar.


A paisagem mudava a cada instante, passei por montanhas, grandes plantações de cana até que a 30 km de Paris começaram a aparecer cidadezinhas muito interessantes e charmosas. Uma delas, Parmain, toda florida e cheia de cafés. Em outra, Saint-Leu-la-Forêt, parei numa boulangerie para comer algo, para quê? Uma torta de damasco enorme e maravilhosa, um croissant de manteiga e um Coca-Cola, isso porque eu já vinha comendo a viagem toda da compra que havia feito ontem no mercado. Aliás, essa é uma dica para viajar gastando pouco. Warmshowers, inquestionável, eu me hospedo de graça, não gasto um tostão e geralmente os anfitriões servem café da manhã e jantar. Para o almoço, eu passo no mercado e faço uma baita compra com dez Euros. Geralmente eu compro um macarrão frio que já vem temperado com queijo, vem até com um garfinho; como ele frio mesmo. Existem opções de saladas e sanduíches prontos, muito mais barato do que qualquer restaurante, ou seja,com dez Euros, você come o dia todo, café, almoço e janta.

Voltando ao percurso, estava a 25 km da minha chegada quando eu comecei a entrar na Grande Paris. O cenário foi ficando feio e passei por Saint-Denis, um bairro sujo e cheio de imigrantes e camelôs. Entretanto, havia ciclovias desde então. A entrada em Paris foi tranquila, apenas muito movimentada,ainda mais no horário que passava, por volta das 18 h. Muitas bicicletas andando nas ciclovias, motoristas mal educados não respeitando as faixas, típico de cidade grande.

Quando entrei na Place de la Bastille me deu uma arrepio. Estava para acreditar que eu havia chegado à Paris. Por incrível que pareça, o deslumbre era tão grande que se pudesse continuaria pedalando pela cidade e pelos pontos turísticos, mas tinha um compromisso e para ele eu fui. Cheguei na casa dos meus anfitriões um hora mais tarde do que o combinado. Assim que entrei na rua, tocou meu telefone e era a Marie querendo saber onde eu estava. Falei que estava na rua dela e ela saiu para me esperar. Simpaticíssima, logo chamou o seu marido, o Jean, que também me recebeu calorosamente. A primeira pergunta foi: "Veux-tu prende une douche ?", sim é banho mesmo. Imediatamente! Precisava tirar aquela nhaca do corpo. Guardamos a minha bike na garagem, fui para o banho enquanto eles preparavam o jantar. Desci para jantar com eles quando chegou um amigo. Ficamos os quatro conversando e bebendo vinho por um longo tempo. Queriam saber mais sobre o meu projeto. Meu francês flui melhor e cheguei à conclusão que o interlocutor tem tudo a ver. O Stéphano de Amiens falava muito rápido e quando eu não entendia, ele parecia não se importar muito em me corrigir ou me fazer entender.


Enfim, após o jantar, peguei a senha do wi-fi e subi e vim para um quarto no segundo piso que eles haviam preparado para mim. Acreditem, me deram a chave da casa deles e falaram que eu podia entrar e sair na hora que bem entendesse, é mole? Minha chegada à Paris não poderia ser mais receptiva.

Amanhã e depois vou ficar por aqui, quero sair a pé, escrever bastante e tirar muitas fotos.

Obrigado a você que lê e me acompanha. Não sabe como isso me dá força para continuar. A jornada é dura, a partir do quilômetro 600, ela vai exigir muito fisicamente, então essas paradas estratégicas são também uma grande oportunidade de descanso físico.

Boa noite, fiquem com Deus e com muitas fotos e histórias de Paris amanhã!


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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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