Luto - O dia mais difícil da minha vida



►Não ter pai, nem mãe é muito estranho. Perdi meu pai há um ano e meio, minha mãe há dez dias. No velório da minha mãe, todos os amigos e parentes lhe trazem um profundo sentimento, mas apesar do carinho não tem como dizer que as palavras parecem superficiais tamanho o tsunami que acontece dentro da cabeça.

No caminho para o cemitério, na madrugada seguinte do fatídico dia de 2 de janeiro, pensava no reencontro com a minha mãe. Queria um momento a sós com ela, como muitos que já tivemos a oportunidade de ter. Cheguei ao cemitério, era uma hora da madrugada do dia 3. Olhei para ela e seu semblante me vem na cabeça até hoje. Jamais vou esquecer do rostinho da minha mãe se satisfazendo com o que de mais simples lhe dava. De repente, surgem as memórias recentes que pareciam longínquas, assim me lembrava que todo sábado eu ia visitá-la e deitava a cabeça sob sua perna chamando-a para um cafuné. Cafuné de mãe não tem igual.

Semanas antes dela falecer, lia sobre o estoicismo, um pensamento filosófico dualista que acreditava na vida após a morte mas não de uma forma transcendente tradicional. Os estoicos acreditavam que nossos átomos se reagrupariam no universo após nossa morte, nos transformando, desde uma porta a um olho de outro ser. Bizarro, mas coerente. Quando recebi a notícia morte dela, horas depois vi um arco-íris sob o mar. Um arco-íris singelo, discreto, como a minha mãe. Sabia que ela havia ido e que sua passagem se dava por aquela ponte colorida. Essa semana, olhando para o céu entre nuvens, vi uma estrelinha e logo imaginei minha mãe me olhando. Contemplei o céu mais um pouco e vi duas estrelinhas, era definitivamente o olhar de mami.

Viver nesse mundo sem raízes maternas e paternas, me traz uma sensação estranha. Uma sensação de que a minha identidade não é mais a mesma e você começa a buscar a sua "nova" nas coisas que lhe fazem recordar positivamente da pessoa amada. Os vínculos e o legado deixados por ela passam a ser regra tamanho é o amor que fica.

Realmente o corpo se decompõe, mas a imagem, o olhar, o cheiro e o carinho jamais sairão da minha memória.

Toda vez que pedalo sozinho, faço um encontro comigo mesmo e por sinal esse é um dos aspectos que mais gosto da cicloviagem. Na minha última cicloviagem parava nas igrejas e pensava na minha mãe. Sabia que ela estava doente e eu, mesmo a distância, poderia ajudá-la de alguma maneira. Hoje em dia tenho curiosidade de como seria um encontro comigo mesmo, pois simplesmente tudo me recorda mamãe, desde uma penca de bananas a uma estrela, ou um arco-íris.

Dia a dia, tenho tentado compreender e aceitar melhor as coisas como elas são, mas é um desafio. Consciente de que são coisas que não podemos mudar, as recordações parecem que se tornam diferentes. O diálogo de 1 de janeiro de 2018 foi determinante para uma nova fase da minha vida e aqui eu termino com muito orgulho de reproduzi-lo a todos:

- Mami! Tudo bem, amor? Eu lhe desejo um feliz ano novo!

- Feliz ano novo para você também meu filho.

- Mami, eu te amo!

- Eu te amo também meu filho.

- Mami, vou voltar para te ver.

(silêncio)

- Te aguardo.

- Tchau, amor!

- Tchau!


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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