EP. #5 Wisques / Wizernes / Heufalt / Bilques / Heuriguem / Wardrecques / Blaringhem / Thiennes / Sa

Atualizado: 26 de Mai de 2019


►Dormi estranhamente, dentro de um saco de dormir sob o cobertor e o lençol da cama para economizar € 5. Tudo bem, acordei cedo como de costume e o café da manhã seria servido pela irmã Lucy às 8:30 hs. Após um bate-papo no café da manhã onde se falavam ao mesmo tempo quatro idiomas diferentes, voltei para o quarto, arrumei minhas coisas e fui me despedir e agradecer a irmã Lucy pela hospitalidade. De repente, ela sacou uma câmera e começou a filmar a mim, o italiano e a alemã e nos pediu para que fizéssemos um pronunciamento em nossas línguas, muito simpático.


Parti destino Arras e já tinha analisado que o dia seria longo, pelo menos 90 km. O dia começou nublado e após uma hora de pedal, os primeiros pingos. Parei numa vila chamada Wardrecques, na verdade era uma rua com uma igreja e algumas casinhas. Chamei um senhor e perguntei onde poderia carimbar meu passaporte e muito gentilmente ele me levou para dentro da prefeitura (aqui se chama Marie) e o fez. Seguindo viagem, os pingos viraram chuva mesmo, já havia 2,5 hs que estava pedalando e alcancei outra vila, Blaringhem, e vi uma boulangerie pequena. Entrei, não estava com muita fome, mas mesmo assim decidi comer porque não sabia o que vinha pela frente. Pedi uma baguete salada com presunto parma e queijo, um refrigerante e uma torta de morango – tudo isso por € 6,5. Comi o sanduíche e deixei a torta para depois. Nessa, um sujeito começou a se interessar pela bike e aí veio a pergunta fatal. Para onde você vai? Disse que pretendia chegar em Roma! Pronto, chegou mais um casal e começaram as perguntas num francês tão rápido que só entendia metade. A questão que não quer calar é: o que um brasileiro faz nessa vila querendo chegar a Roma? Tentei explicar, o sujeito virou foi embora e dez minutos depois voltou, intrigado perguntou se eu precisava de algo. Falei para ele que a única coisa que precisava era carimbar meu passaporte peregrino. Falou para eu segui-lo. Pegou o carro e fui atrás dele e ele me deixou em frente à Marie. Desceu do carro e quando fui agradecê-lo novamente ele me perguntou se eu vinha do Brasil, de que cidade, não parava de falar. No final eu só respondia “oui, oui, oui”. Pediu-me um abraço e partiu!

Peguei estrada novamente e a chuva apertou, coloquei a minha capa, protegi o alforje traseiro e o dianteiro; fui assim mesmo. Ainda estava muito longe, iria pegar uns trechos longos de inclinação de 6% e 8%, pretendia chegar tranquilo em Arras.

Passei por diversas vilas e nunca via ninguém e me perguntava onde está o povo desse país. Eu via uma ou outra pessoa na rua, comércio fechado e o que me impressionava é a quantidade de cemitérios na rota. Cheguei a pensar, acho que todos os franceses morreram e ninguém nasceu no lugar e as vilas ficaram vazias porque nunca vi tanto cemitério na minha vida; tem cemitério para todos os gostos, passei por um com 56.000 mortos da 1ª Guerra Mundial.


Outro detalhe que me chamava a atenção é que muitas casas nas vilas são estilo enxaimel (achei que esse estilo só fosse predominante só na Alemanha). De repente, avistei uma grande torre na minha frente, saí da rota do GPS e fui atrás da torre. Encontrei uma vila um pouco maior chamada vila de Béthune, muito bacana, com praça central rodeada de restaurantes e uma torre de relógio ao centro, típica cidade francesa. Nesse ponto, já estava me dando um certo cansaço, já tinha rodado 70 km, faltavam 30 km até Arras e o GPS me avisava que vinha montanha pela frente. Poderia até ter ficado em Béthune, mas mesmo assim não desanimei; parti a Arras.


No final peguei uma estrada rumo a Arras via Rota dos Canadenses, onde existe um memorial para os combatentes canadenses da 1ª Guerra Mundial, assim como existe um campo de minas terrestres enterradas. Depois dessa rota o GPS fez um caminho maluco cortando por um estrada de terra de serviço, acho que ele já estava sabendo que a bateria dele ia para o espaço e quis chegar logo. Aliás, vou fazer um aparte sobre o último mapa europeu do Garmin, simplesmente sensacional, o GPS calcula direitinho e realmente foge dos grandes centros, avenidas ou estradas secundárias quando é estritamente necessário.



►Cheguei em Arras embaixo de muita chuva. O GPS com a bateria respirado por aparelhos marcava 97 km. Procurei um abrigo na Diocese de Arras, aqui me deram comida e alojamento. Amanhã, dia de descanso, dia de manutenção da bike e de andar um pouco pela cidade.

#viafrancigena #frança

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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