EP. #38 - Roma para mim :)


►Meus primeiros minutos em Roma ainda estavam em estado de ebulição, mas como parte da rotina diária precisaria de um banho e um almoço. Havia reservado um quarto para mim perto de Roma Termini, meu ponto final da jornada. Nessa região existem centenas de hotéis, qualquer canto eles transformam num hotel e o meu era um desses cantos. Depois de apanhar tentando achar o bendito, parei um casarão e havia uma campainha com o nome do hotel. Achei estranho, toquei a campainha e um chinês veio me atendeu, pediu para eu entrar. A princípio não entendi qual era a do chinês, não sabia falar italiano, inglês, tentei até o francês, não saía nada, mas fui atrás dele. Me levou num edifício, apontou para eu encostar a bike. Fui com ele no primeiro pavimento e realmente havia um hotel com outro nome. De repente o chinês evaporou. Perguntei à recepcionista, falei que havia reservado e ela procurou no sistema e falou que não havia reserva alguma em meu nome e que meu hotel era no segundo piso. Fui atrás do chinês e vi que ele tinha subido ao segundo piso. Ele olhou para mim e bateu a porta na minha cara. Toquei a campainha, insisti e nada. Fiquei puto e me perguntei se esse chinês tinha o mesmo lema do imperador romano Constantino "um Deus no Céu, um Imperador na Terra". Voltei para o primeiro piso cheio de ódio e a recepcionista foi grossa comigo; num segundo momento me chamou e falou que o hotel do segundo piso passou a reserva para o hotel dela. Me levou até o aposento, um pulgueiro, falou que deveria deixar minha bike fora; concordei até ela sair, trouxe a bike para dentro do quarto. Ah, finalmente banho, que delicia sentir a água cair pelo corpo, como é bom lavar a cabeça e me livrar daquele cheiro azedo de cicloviagem que me acompanha. Por mais que eu lave as roupas, o cheiro azedo perpetua em mim e principalmente nas minhas mãos.

Tinha um objetivo e ele teria que ser cumprido rapidamente. Queria o "TESTIMONIVM PEREGRINATIONIS". Teria que ir até o Vaticano. Fui atrás de um ônibus, o 64, aquele mesmo que todos falam que turistas são assaltados dentro do ônibus. Saí sem mochila, apenas carregando um saco de supermercado com a câmera e meu celular dentro. Peguei o ônibus e a viagem de 20 min foi tranquila até o Vaticano. Cheguei na Piazza San Pietro, lindo o momento de estar lá, um privilégio. Olhava para aquela grandiosidade e fico imaginando quantos séculos e quantas pessoas já passaram para se construir um império desses. Roma lotada de turistas, assim como o Vaticano. Polícia, exército espalhados por todo canto. Entretanto, Roma me pareceu uma cidade alegre. Estive aqui há 20 anos e tinha poucas lembranças. Não fazia a mínima ideia onde buscaria meu testemunho, primeiro fui perguntar numa loja de souvenires. Italiano é engraçado, ou ele realmente lhe ajuda ou vira a cara. A mulher virou a cara para mim; fui até o correio e cordialmente a atendente me indicou o local. Foi rápido, em menos de 5 minutos, a atendente do Vaticano fez meu testemunho e carimbou pela última vez minha credencial. Ficou impressionada com o número de carimbos e principalmente do primeiro carimbo, de Cantebury.


A partir desse momento, estava entregue a Roma, a cidade que tanto sonhei em chegar. Não era mais peregrino. Era apenas um cidadão trajando uma calça e camiseta dry fit, e segurando uma sacola de mercado. Era o começo de uma identidade de um novo eu transformado pela Via Francigena. Sentei na sarjeta, já havia chorado tudo que tinha direito derramando minhas lágrimas sobre o Rio Tiber momentos atrás; agora queria apenas admirar e ser um ente comum entre tantos que passam por aquelas ruas. Não queria mais as glórias de um guerreiro, queria a simplicidade de um homem. Foi assim, que com o último resto de energia, fui conhecer um pouco de Roma, talvez uma Roma não tão explorada como um turista habitual faria mas uma Roma degustada por um turista recém chegado da Via Francigena. Do Circus Maximus, talvez uma das obras romanas que eu mais admire, ao Coliseu, tudo numa visão estritamente simples como deve ser, exatamente como a Via Francigena me ensinou!







E por aqui fica imortalizada a história dessa cicloviagem. Obrigado a todos que acompanharam, participaram de alguma forma e postaram mensagens de incentivo!

#itália #viafrancigena

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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