EP. #36 - Montefiascone / Balarotto / Viterbo / Le Farine / Tobia / Tre Croci / Madonna di Loreto /


►Enfim uma noite bem dormida, nossa como precisava disso. Tudo ajudou, não estava tão quente, saí a noite para comer algo e voltei rapidamente, dei uma organizada nas minhas coisas e cama, o sono veio como uma pedra e dormi profundamente.

Acordei cedo, não estava com muita fome, desci para o café da manhã e acabei comendo pouco, queria partir logo. Coloquei minhas coisas nos alforjes e estrada novamente rumo Viterbo. Hoje o dia não amanheceu tão quente logo a temperatura estava muito agradável para pedalar. Tomei o cuidado de traçar a rota o mais longe possível de estradas e embora meu dia fosse curto de apenas 49 km, queria andar lentamente, apreciar os campos e ver os detalhes, sem pressa.

Cheguei a Viterbo apenas 19 km depois depois de uma longa descida entre as montanhas. Minhas pernas agradeceram imensamente! Viterbo também é uma cidade rodeada por muralhas foi um dos centros etruscos mais importantes antes de cair no poder dos romanos no séc IV A.C. Fui direto para a Piazza San Lorenzo onde sabia que poderia carimbar minha credencial peregrina. Entrei na secretaria e várias senhoras atendendo me receberam com muita cordialidade.



Carimbaram minha credencial e me perguntaram de onde vinha; quando falei que era da Inglaterra todas ficaram espantadas! "A pedalare?". Rapidamente todas se juntaram e me deram uns santinhos para eu rezar e ter fé nesse final de viagem. Guardei-os, juntamente com a prece que recebi em Canterbury de Canon Clare que se encontra até hoje no bolso da bolsa de guidão da bike.

Segui viagem, meu destino era Bassano Romano. Havia ligado na noite anterior para um monastério que fica a 1 km da cidade solicitando um leito. A viagem até Bassano Romano foi muito tranquila, com algumas subidas como sempre, mas modéstia parte a rota foi caprichosamente feita com carinho por mim. Havia um parque no meio do caminho e resolvi entrar nele embora não tivesse na minha rota.


►Foi seguindo a bússola do GPS, seguindo as estradas pelo meio do parque até que num determinado momento a situação começou a ficar um pouco tensa pois a estrada foi fechando e de repente acabou num monte de capim seco. Inconformado, sabia que deveria ter uma saída, deixei a bike e fui andando para a lateral para tenar encontrá-la e a achei no meio de uma plantação de laranjas. Voltei, peguei a bike e fui empurrando até que de longe avistei uma casinha. Minha única preocupação nesse ponto era tudo estar fechado por cercas e não conseguir passar (já tinha até traçado meu "plano b" de arremesso de alforjes assim como fiz ao atravessar uma pinguela na Estrada Real em 2013), mas Deus me abençoou e saí novamente na estrada principal.

Continuei minha viagem e minha rota me levou para outro bosque, esse com cascalhos no piso, depois terra, muitas árvores, a paisagem era deslumbrante e estava em estado de delírio de poder passar por ali.


Fui acompanhando a linha do trem até Capranica Scalo, onde depois de pegar uma longa subida cheguei ao Monastero San Vincenzo. Fui recebido muito gentilmente por Don Alessandro, com quem havia falado ontem. O monastério é muito grande, possui uma igreja, refeitório, um parque, campo de futebol, várias salas para prece fazendo honra a diversos papas. Don Alessandro levou-me aos aposentos, um quarto simples no segundo pavimento, mas com banho. Abro a janela do quarto e um susto, uma vista privilegiada para parte da "La Faggeta di Bassano Romano", um mar verde 442 hectares num solo de formação vulcânica. Talvez a vista mais privilegiada que já tive a partir de um aposento.



Falei para ele que estava com fome e ele não mediu forças para ligar para o refeitório (já eram 14 hs) e perguntar se ainda havia comida. Desci ao refeitório e me serviram um risoto com vinho e água. No final, Don Alessandro me serviu um café expresso e me convidou para a missa das 18:30 hs. É muito bom se sentir abraçado dessa maneira.

Nesses 36 dias de jornada minha companhia sempre foi eu mesmo, conversei muito comigo, olhei de frente todos os meus defeitos, analisei, me xinguei muito, me expus. Exigia do meu corpo não só fisicamente, mas internamente tentava enfrentar alguns medos e receios. É uma autoanálise diária que pira; um outro tipo de sabedoria a qual não se perde a razão, vejam, mesmo quando debochado. Somos seres solitários sim e que estamos inevitavelmente isolados na nossa consciência, assim há a necessidade do mundo nos oferecer constantemente coisas novas a cada minuto porque não conseguimos nos preencher dentro do vazio do nosso conhecimento. Como temos a dificuldade de a cada dia de estabelecer algo significativo e orgânico em nossas vidas, partimos para redes sociais tentando buscar através da observação e aprovação dos outros aquilo que desconfiamos e achamos que seja bom para nós. É o medo de ser transformado em pedra pela Medusa versus o de levar uma vida na zona de conforto e com caminhos já pré estabelecidos. Não seria hora de perguntar: o que eu tenho feito com a minha vida? E nessa, vem-me uma frase deslumbrante de Sartre: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.". Bárbaro e gostaria de ter um pouco dessa consciência para ser melhor e também poder ajudar quem realmente quer melhorar.

A menos de 24 hs da Piazza San Pietro, eu me sinto leve. Já tomei banho, comi e fiquei horas sentado nos bancos do jardim do monastério. É uma sensação estranha que sinto, quando penso em chegar a Roma, minha garganta prende; eu me sinto uma panela prestes a ebulir. Tenho certeza que tomei a decisão correta de ficar aqui no monastério, fora um pouco da Via Francigena, mas com certeza um lugar de paz espiritual. Assim sou eu, abaixo, um dia antes da chegada a Roma, talvez esgotado fisicamente mas muito ansioso para cumprir com paz e espiritualidade a minha longa jornada.


Desejo a todos uma boa noite e até amanhã, se Deus quiser, no Vaticano.

#viafrancigena #itália

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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