EP. #35 - Acquapendente / San Lorenzo Nuovo / Bolsena / Sant' Antonio / Montefiascone


Péssima noite, dormi num convento ao lado de uma cara que roncava muito. Chegou uma hora que tomei um remédio para dormir e quem disse que consegui dormir? Estava ao lado de uma janela, as ruas são de paralelepípedo, os carros passam fazendo um barulharão e fora o calor insuportável que caía em pingos sobre o meu saco de dormir.

Acordei 6 hs já arrumando as minhas coisas para partir, destino Montefiascone. Meros 44 km de onde estava, com um detalhe, o nome da cidade, Montefiascone, fica num: monte! Pois é, hoje era dia de montanha e eu nem estava sabendo tamanho o cansaço e o estresse do fim de tarde de ontem para arrumar um canto para eu dormir.

Saí de Acquapendente em direção a San Lorenzo Nuovo com uma subida de 2% mesclando estrada de terra e de asfalto. Peregrinos pelo caminho, mas poucos.


Em San Lorenzo Nuovo, uma imagem surpreendente tão logo se chega no topo da colina, você dá de cara com o Lago di Bolsena, enorme, 113 km². Depois de uma parada no belvedere, despenquei pelos menos uns 100 m até dar de cara com o lago. Tomei uma estrada à direita e fui vê-lo de perto. Realmente é muito grande, lindo e é considerado o maior lago de origem vulcânica da Europa. Possui uma forma oval e duas ilhotas.


Montefiascone fica do outro lado do lago e para lá fui. Num ritmo bem lento, mas não prevendo a subida, cheguei a pegar uns desvios para peregrinos, subidas de terra e bosques (santa inocência), mas valeu a pena. Sempre é bom pedalar no meio da natureza por mais cansado que esteja.



Nesses desvios perdi a minha GOPRO, já era, dei para o caminho e aqui reaprendo de forma intensiva o que já havia aprendido no Caminho de Santiago, mas talvez tenha esquecido: nada é seu! Pensamos e fazemos para que as coisas nos pertençam, temos uma fome de posse fora do controle. Queremos tudo perto da gente, no nosso porto seguro e assim, nos cercamos de coisas materiais, algumas completamente fúteis, e humanas para termos o prazer da posse. Nada é nosso! Não levamos nada disso quando morremos ou partimos e aqui se "morre" a cada dia quando se pega a estrada rumo a um novo horizonte. Confesso que apesar de eu ter cometido o "pecado" de trazer comigo uma pedra de Grand Saint-Bernard, a única coisa que realmente levarei serão as boas lembranças das pessoas que conheci e vivi e dos lugares por onde passei. As fotos são uma bela recordação na proporção de 1% do que se viveu e sentiu, funciona como um pequeno flash do momento vivido, mas cá entre nós, totalmente desnecessário. Se pudéssemos deixar tudo mais livre seria muito mais fácil. Aqui quando se tenta prender, você toma uma "chave de braço" do Caminho que lhe diz justamente ao contrário. Fiquei chateado de ter perdido a minha câmera? Sim, assim como fiquei chateado de ter perdido duas bandanas, pares de meia, ocular do visor da Canon, entre outras coisas mais que ficaram para trás as quais nem lembro mais. A impressão é que se passasse mais um mês aqui talvez voltasse só com a roupa do corpo para o Brasil.

Voltando à rota e ao calor, subi 14 km de montanha final com declividade em torno de 4%. Duro, muito duro. A essa altura, a mente quer, as pernas não mais. Às vezes tenho uma sensação de estafa mesmo. O corpo sente dores cada dia em um lugar, mas as pernas estão totalmente fadigadas.

Cheguei cedo a Montefiascone, parei no primeiro restaurante que apareceu na minha frente para almoçar, tomar um vinho e relaxar um pouco depois de tudo hoje. Fui à Informação Turística, carimbei minha credencial peregrina e arrumei facilmente um lugar para eu ficar. Hoje paguei um pouco a mais, queria um quarto para planejar com calma os dois dias seguintes.

Fui para o hotel, tomei um banho e minuciosamente tracei as rotas para amanhã e reservei os lugares para ficar. Amanhã vou para uma cidade chamada Bassano Romano distante 50 km daqui, totalmente fora da rota da Via Francigena, mas além de um meio de caminho até Roma, me chamou a atenção o fato de poder me hospedar mais uma vez num monastério - Monastero San Vicenzo, me remetendo aos meus primeiros dias de viagem na França quando me hospedei em Wisques também num monastério. Creio que nesse momento preciso de paz espiritual acima de tudo. Confesso que a tensão é eminente nesses últimos dias, não tem explicação, até tem, mas não vale a pena buscá-la.

Fim do dia, passeei pela cidade. Calma, pacata e mais livre de turistas. De cima da cidade, num belvedere dentro de um bonito parque cheio de árvores, de onde é possível se ter uma boa visão do lado nordeste do Lago di Bocena.



Sua Basílica Santa Margherita impressiona pelo tamanho comparada ao tamanho da cidade. O duomo é lindo e se destaca quando se olha para o teto.



Eis aqui meu antepenúltimo relato e impressão da Via Francigena. Um beijo a todos que lêem e são tão curiosos como eu, fiquem com Deus e até amanhã em Bassano Romano.

#itália #viafrancigena

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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