EP. #25 - Palestro / Robbio / Mortara / Garlasco / Carbonara al Ticino / Pavia / Vigalfo / Gerenzago


►Uma noite muito mal dormida, por dois motivos, primeiro o calor aterrorizador desse país e depois o sino da igreja anunciando cada hora da madrugada; ouvi todas as horas e depois de sete badaladas eu me despertei. Comecei a arrumar as coisas, ia me despedir do Paulo mas quando desci ele já havia saído.


Apesar do calor da madrugada o dia amanheceu meio nublado, então vi que iria sofrer menos. Mesmo assim, além dos alforjes, fui carregando uma mochila de roupas e outras coisas que não vou precisar mais, peso 4 kg. Pois é, como sempre digo me livrei de 4 kg de medo, mandei o medo pelos Correios tão logo cheguei na cidade de Mortara para a casa do Alessandro lá em Arezzo. Tão logo saí dos Correios, montei na bike e, nossa que alívio, como é bom ficar 4 kg mais leve, não somente pelo peso em si mas por conta dos parafusos de suporte desse bagageiro.


Hoje, novamente sem rumo, sabia que iria passar por uma cidade grande, Pavia, mas essas estradas de ligações a cidades grandes são muito cheias de carros, quando surge uma vicinal, entro nela, mas tem vezes que não tem jeito, o único elo de ligação é realmente a estrada secundária. Na França estava mais fácil de pedalar nesse sentido, aqui parece que é tudo mais cheio, mais pessoas. Segundo o que pesquisei, a Itália tem a segunda maior população entre os principais países da Europa, perde para a Alemanha. A França é menos populosa e possui um território maior que o da Itália.


Antes de chegar a Pavia, uns 5 km, fiz um caminho que saía da estrada e contornava um rio, ah paz, muito bom, um estradinha só pra mim, sem carros, beirando o rio onde havia muitos pontos para pescas e até mini praias.

Chegando em Pavia, aquele baque, carros, gente, mas fazer o que vamos enfrentar. Apesar da fome, já eram 13 hs, dei uma volta rápida pelo centro e comecei a procurar restaurantes, nada me atraiu. Saí do centro, passei novamente em cima da ponte atravessando para o outro lado da cidade e acabei almoçando numa cantina que me serviu um pene, um refrigerante e uma torta de espinafre por € 10,00. Depois do almoço voltei para o centro, Pavia é a cidade dos tijolinhos.



Reparei que a ponte, a Catedral, muitas coisas são feitas com tijolos. Tem um aspecto medieval e as ruas são típicas italianas, estreitas e cercadas por edifícios de três andares. Muitas atrações na cidade, talvez desse para ficar aqui mais um dia, mas confesso que estou com um certo asco de cidade grande e monte de gente. Apesar disso, dei área, queria um lugar mais sossegado e sabia que uma hora ou outra eu iria encontrar.

O sol começou a apertar mais para o meio da tarde quando alcancei a cidade de Inverno, passei por um bonito castelo (foto abaixo) e quando cheguei na cidade de Termi di Miradolo.


Tinha a indicação de um B&B no GPS mas quando tentei seguir essa direção fui para no meio do mato junto às plantações de uva. Resolvi então parar num bar, comprar uma água e perguntar onde poderia achar um B&B. O atendente me indicou um com aquela cordialidade italiana e só consegui achar a rua. Parei novamente em frente a uma casa e havia um senhor conversando, quer dizer gritando, com uma outra pessoa da casa do outro lado da rua. Imediatamente ele percebeu que eu era gringo e pediu para entrar na sua casa. Na hora que soube que era brasileiro, gritou para o amigo dele do outro lado da rua. "Un brasiliano!" Muito simpático, o Sr Ângelo me ofereceu água, perguntou se precisava de algo e me indicou um B&B no fim da rua, o mesmo que o cara do bar havia indicado. Foi pessoalmente comigo até lá falando sobre futebol, que o seu time era o Internazionale Milano, falou sem parar dos jogadores Roberto Carlos, Ronaldinho e Adriano. Pensei, que boa impressão que esses brasileiros deixaram por aqui, não? Quero deixar boas impressões também! Entretanto, tomara que ele não saiba que fim levou o Adriano.

Infelizmente não havia vaga no B&B que ele me levou! Nesse ponto, já desgastado pelo calor depois de ter rodado 96 km, perguntei onde teria algo em conta mais próximo. Vendo a minha aflição, o próprio dono do B&B começou a telefonar para hotéis na redondeza e achou um! No B&B iria pagar € 35,00 e ele achou um hotel por € 40,00. Achei razoável e decidi me encaminhar para o hotel, mas não sem antes o Sr Ângelo, sabendo de toda a história, ir até a casa dele pegar sua bike e me acompanhar até a porta do hotel através de uma trilha que passava em frente às plantações de uva. Puxa, quanta gentileza.


Ao me despedir, pedi para tirar uma foto com ele, falei que tinha um blog e que escreveria sobre o nosso encontro. Antes de partir me disse em italiano: "Se posso essere d'aiuto, voglio farlo, se posso aiutarlo, lo farò!". Puxa, muito bacana a aparição desses anjos na nossa vida, não?


Depois desse encontro, surgiram-me várias coisas na cabeça e lembrei de uma palestra que assisti do Leandro Karnal na Casa do Saber em São Paulo há três anos, antes de ele fazer sucesso. A reflexão é a seguinte: A vida depois do 40 anos passa rápido, depois do 50 anos, voa, veja só eu tenho 50 anos e fiz aniversário "ontem", janeiro! Então, o tempo é muito curto para nos dedicarmos a coisas e a pessoas medíocres, um emprego que não lhe trás felicidade, ou estar ao lado de pessoas que você não ama. A vida é muito curta para investirmos em pensamentos medíocres, ou coisas que não vão nos levar a lugar algum. Conheça a si mesmo, pois esse é o primeiro passo para você saber se o rumo que você segue é o correto. Tire a bunda da cadeira, saia dessa posição de conforto, faça chuva ou faça sol, frio ou calor, siga a estrada, siga o caminho sabendo que ele é só seu e você o constrói a todo momento. A partir do momento que tiver essa consciência, viverá uma vida melhor. "Grazie per avermi ispirato oggi, Angelo!"

Quer saber para onde vou amanhã? A noite conversamos, eu não sei, Deus sabe!

#itália #viafrancigena #vídeo

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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