EP. #24 - Pont Saint Martin / Carema / Settimo Vittone / Montestrutto / San Germano / Montalto Dora


►Noite bem dormida em Pont Saint Martin. Confesso que sempre me dá uma certa preguiça de arrumar alforje, pesar, pensar em tudo pra ver se não estou esquecendo de nada, mas na hora de montar na bike o astral é completamente diferente. Uma noite quente mas amanheceu 22 graus e meu destino hoje era, sem destino; isso mesmo, ia rumo sudeste na direção de Vercelli.

Definitivamente aqui na Itália eu me sinto na Via Francigena, há indicações por todo lugar, e peregrinos vários, alguns bicigrinos também. Passei na estrada por um que puxava um carrinho em vez de alforjes, achei interessante, quem sabe?

Hoje, passei por muitos vilarejos ligados por estradas e bosques. Outras com alamedas em direção obviamente a uma igreja.



As vilas não são tão espaçados como na França, parece que tudo aqui é mais apertado; na França há muitas casas, aqui são prédios e ruelas, todas pequenas com calçamento de paralelepípedo.


Muitos bares pelas ruas, isso não existe na França. Tenho a impressão que as pessoas saem mais na rua, diferentemente do que na França. As ligações entre as vilas são por estradas, dificilmente você passa de uma vila a outra sem pegar uma estradinha pelo menos. Os franceses são mais discretos e muito educados, por aqui sempre se ouve alguém gritando. Agora, uma coisa que notei aqui é o número de igrejas, impressionante, uma vila pequena possui duas, três delas. Talvez seja proporcional ao número de cemitérios que vi na França. Outra particularidade aqui é que não vi igrejas com cemitérios atrás, como na França. O idioma tem sido uma barreira, meu francês é muito melhor do que o meu italiano, então quando tenho que perguntar algo é uma mistura de espanhol com italiano, que coisa difícil, mas gestos aqui valem muito também.

Vim num ritmo bom de pedal hoje e até para atrasar um pouco, pois geralmente conto de 6 a 8 hs de pedal por dia, resolvi entrar na cidade de Ivrea. Vi um castelo de longe e fui atrás. Fiquei passeando pela cidade, subi até o castelo que estava fechado, mas pude ver a cidade de cima.


►Ivrea, acima e abaixo.


Voltei para estrada e mais placas da Via Francigena.


►Às vezes, fico temeroso de ir atrás dessas placas, apesar do destino comparado ao GPS ser sempre igual, tem um negócio que aprendi no Caminho de Santiago: a trilha do peregrino não é obrigatoriamente a do bicigrino. Por exemplo, se eu tentasse escalar o Grand Saint-Bernard pela trilha dos peregrinos, estaria tentando fazer até hoje. Impossível, tem lugares que uma bike com dois alforjes não passam. Ainda estou preocupado com a questão desse bagageiro que já estourou dois parafusos de apoio. Apesar de sempre ter um "plano b" em mente para o caso de mais um estouro num lugar ermo, não gostaria de passar por isso novamente, então decidi de uma vez por todas me livrar do que não vou usar mais e adivinha o que é? Roupa de frio! Eu a usei até Grand-Saint-Beranard, foi muito necessária, caso contrário congelaria naquela descida, mas aqui na Itália não é mais, por causa de um detalhe. Por volta de umas 15 hs, o calor já está batendo 40 graus, com uma umidade elevadíssima, lembrou-me a Estrada Real de 2014. Enfim, empacotei um monte de coisas, segunda pele, meias, etc. e vou mandar por correio amanhã à casa do Alessandro (que está com a minha mala) em Arezzo. Como eu vou pegar essas coisas depois que chegar a Roma se chegar, não faço a mínima ideia, mas preciso me livrar desse peso urgente, em nome dos meus joelhos e do bagageiro.

Voltando à cicloviagem, pedalei 94 km hoje, teve muito plano e o vento ajudou, mas o que matou foi o calor, então quando foi umas 15:30 hs, depois de passar por Vercelli, comecei a procurar uma vila para me hospedar.


Tinham algumas opções no Dormifrancigena e fui atrás delas. Acabei vindo parar num vila chamada Palestro, a uns 10 km de Vercelli.Uma vila com 2.000 habitantes e fundada em 999 AD. Palestro vem do latim, paluster or palustris que significa terra. Sempre digo que prefiro as vilas menores, são mais simpáticas e mais baratas também. Encontrei uma hospedaria nessa vila em Ospitaliere La Torre Merlata, onde o Paulo e sua esposa, os propritários, sabe falar um pouco de português porque tem amigos no Brasil. Por € 35,00, a hospedagem de uma noite mais o café da manhã.


Parece-me razoável, exatamente o mesmo preço que paguei ontem em Pont Saint Martin. A conclusão que cheguei é que se de três anos para cá, o Caminho de Santiago não inflacionou, a Via Francigena tende a ser mais cara do que o Caminho de Santiago, principalmente na França e na Suíça. Bem, jantei, comi uma pizza, saborosa, massa fininha e elas vem servidas diretamente no prato; prefiro a Pizzaria Camelo. Amanhã tem mais Via Francigena, vou continuar em direção sudeste para baixo de Milão, até virar para sudoeste na Toscana, mas isso ainda leva alguns dias. Boa noite, Brasil!

#itália #viafrancigena

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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