EP. #19 - Lausanne / Bourg-en-Lavaux / Saint-Saphorin / Vervey / Clarens / Montreux / Veytaux / Vill


Saí de Lausanne logo cedo, destino Martigny. Eram 70 km pelas minhas contas e pelo o que eu estudei da rota, iria ser uma viagem por toda Riviera do Lago Leman, passando por vilas famosas como Montreaux, Villeneuve!



Realmente a rota foi linda, cheguei a uma primeira cidade, bem movimentada, chamada Vevey. Peguei meu carimbo peregrino, assisti a um casal na rua tocando “My Way” do Sinatra e deu para me emocionar. Continuei a viagem, hoje as pernas estavam chamando para o pedal e o dia estava lindo, sem uma nuvem no céu. Passando pela rica Montreux antes de adentrar entre as montanhas que me levariam a Martigny, percebo que a Suíça é um país perfeito e caro. Aqui se tem acesso a tudo o que é moderno e de alto custo, de eletrônicos a carros. As estradas são invejosamente muito bem sinalizadas eo asfalto, nem se fala. A cultura do esporte ao ar livre paira não somente nos parques, mas por todas as ruas e avenidas. Não precisa dizer que a rota que me trouxe a Martigny hoje era simplesmente uma ciclovia à beira mar, mas não para por aí. Além da ciclovia que acompanha as estradas secundárias, há estradas terciárias asfaltadas destinadas somente a bicicletas, patins e trekking. Por todo lado você vê indicações dessas rotas. É um país privilegiado nesse ponto de vista, coisa de dar inveja a qualquer um que gosta de atividades ao ar livre seja lá qual ela for.



Justo hoje que eu queria demorar para chegar, um vento muito forte a favor me empurrava em direção a Martigny e as pernas adoraram. Rodando o circuito final ao lado do Rio Rhône, já pude avistar um monstro chamado Grand San Bernard, que emoção, com o cume ainda coberto de neve. Quatro quilômetros de Martigny, mais uma surpresa, dessa vez assustadora, vi uma pessoa toda de branco encostada numa ponte de pedra. Fiquei pasmo, peguei a GOPRO e fui xeretar o que era. Cheguei bem pertinho, parecia uma múmia, mas era a escultura de uma mulher travestida de múmia. Asssista ao vídeo abaixo:


Cheguei em Martigny por volta das 14:30 hs, com muita fome. Tinha marcado com o Jeff às 15 hs na Igreja Protestante. Assim que eu cheguei, ele me ligou, não deu tempo de almoçar e fui direto encontrá-lo. Quanta hospitalidade, digno de quem é peregrino nato.


Fui levado para um quarto dentro da Igreja Protestante com todas as facilidades, cozinha, chuveiro, fogão, lavado. Eu me acomodei e depois ele me levou para conhecer o pastor da igreja. Nessa hora foi engraçado, há uma lojinha de roupas, tipo brechó na parte de baixo do salão da igreja e lá estavam o pastor e uma senhorinha que tomava conta da loja. A senhorinha me amou, falou que falava bem o francês e me deu uma camisa de ciclismo que estava pendurada, fiquei meio sem graça mas aceitei. Depois, conversando e conversando, ela falou olha, eu acho que essa jaqueta também fica bem para você, toma, leva. E fui eu lá vestir a jaqueta num baita calor de 30 graus para agradar a velhinha. E ela não parava de falar, perguntou tudo de mim, para onde ia, de onde vim, mas o momento crucial foi quando ela entrou para dentro do brechó e voltou com uma calça. Queria também me dar a calça (era uma calça de trilha, de lona, muito bonita por sinal) e eu pensei, se eu aceitar ela vai continuar me dando coisas e para carregar toda essa tralha a Roma? Agradeci, mas não aceitei. Daí a senhorinha quis fazer uma sessão de fotos comigo e o pastor, puxa acho que ela nunca viu um brasileiro saindo de Canterbury de bike querendo chegar a Roma, só pode ser isso.



Saímos da igreja e eu e o Jeff fomos ao Centre Ville conversar a respeito da minha jornada a Roma e ele me deu vários conselhos, desde ter dinheiro trocado, a lugares para ficar. Ele queria porque queria me dar uma lista atualizada de lugares para eu ficar para eu não ter problema de hospedagem e no final falou: “C'est ne pas le Camino de Santiago. Vous serais en Italie”. Isso me assustou um pouco porque já tinham me dito que a viagem pela Itália é outra viagem que não tem nada a ver com a Inglaterra, França ou Suíça, que lá é uma zona, é um Brasil na Europa como diz um amigo meu. Enfim, o cuidado do Jeff foi tanto comigo que até, da lista pessoal dele, ele contatou a presidente da Associação da Via Francigena que vai me enviar uma carta a mim ao Hospice du Grand San Bernard, onde ficarei hospedado daqui dois dias, uma lista atualizada que eles possuem.

Bem, tenho mais um dia aqui em Martigny para descansar as pernas para o ataque de 44 km ao Grand San Bernard. Encarar essa subida, fisicamente estou bem, acredito, está pegando um pouco mais o psicológico, quando penso, esfria a minha barriga. Então, vou dormir pra descansar. Boa noite, Brasil!

#suíça #viafrancigena #vídeo

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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