EP. #16 - Besançon / Chapelle de Bois / La Vèze / La Baraquet / Les Cloutuiers / Tarcenay / Ornans /


Acordei cedo e indisposto, havia tido uma boa noite de sono, mas assim que levantei sentia algo, não sei no estômago, não sabia o que era. Desci para tomar um café, sem a mínima vontade de comer - realmente algo muito estranho acontecendo. Voltei para o quarto, voltei a deitar, fiquei olhando para o teto durante muito tempo, levantei de novo e comecei lentamente a arrumar minhas coisas. Depois de uns 30 minutos, já com todas as coisas arrumadas, desci à recepção, peguei a chave do depósito e retirei minha bike. Coloquei os alforges nela, chequei os equipamentos, a rota e parti. Demorou um minuto para o que eu estava sentindo passar. Como num passe de mágica, eu me sentia disposto, atravessando o Parc Glacis logo no primeiro quilômetro. Qual conclusão eu cheguei? Que ficar muito tempo num lugar só me dá ânsia. Havia dois dias que estava em Besançon, está certo, linda cidade cultural, moderna, mas necessito de movimento, de assistir às coisas passarem na minha frente mudando o tempo todo, como se fosse um filme e o filme que eu estava assistindo era o mesmo há dois dias.

Hoje o dia foi especial por alguns motivos, ontem choveu muito e parecia que hoje ia ser o mesmo, segundo a previsão do tempo. Que nada, aqui eles erram também, e assim foi um dia entre sol e nuvens numa temperatura agradabilíssima para se pedalar. Sabia que estava no meu penúltimo dia na França e como passou rápido, parece que cheguei a Calais ontem e não há duas semanas. Sentimento de conquista de já ter rodado até hoje 759 km, um pouco menos da metade do que me proponho. O corpo está respondendo de uma maneira impressionante, eu me sinto bem fisicamente e aquelas dores que imaginava ter no meu joelho esquerdo (cheguei a usar joelheira patelar pro alguns dias) simplesmente sumiram. O corpo se adaptou à rotina, a musculatura da perna já enrijecida depois da etapa francesa parece estar definitivamente livre das câimbras e das contusões. Tenho que abrir um parênteses a meu médico ortopedista Dr Marcus de Carvalho que me orientou corretamente com medicamentos fitoterápicos para que tudo ocorresse bem.

A saída de Besançon foi incrível, nem uma subida paralela à Citadela de inacreditáveis 24% de inclinação nos primeiros 300 m, abalaram as minhas primeiras horas da manhã. Subindo rumo à Chapelle de Bois pude presenciar do belvedere a Besançon que me acolheu por dois dias e que ficará na lembrança para sempre.


►Passei por dois parques antes de Chapelle de Bois, Claire Combes repleto de trilhas, alguns trechos não pedaláveis, outros perigosamente pedaláveis. Tudo bem, estava valendo, o astral estava altíssimo.


►Parei num posto de gasolina para calibrar os pneus, fazia dias que não fazia, e esses estavam com espantosos 26 psi. Pensei, fiz todas aquelas com esse peso todo com 26 psi? Por isso que estou emagrecendo! Pela bagatela de € 0,50, você tem direito de usar o compressor e o manômetro. Aqui a unidade pressão aqui na França é em bar → kgf/cm², no Brasil utilizamos o psi →lbf/in². Não sabia qual era a razão das duas unidades, mas no final eu acabei deixando o pneu duro demais; era para ter colocado 3 e 4 bar (frente e trás) e acabei colocando 4 e 5 bar. Deixei assim pois sabia que só era asfalto hoje. E que delícia andar com o pneu calibrado!

A rota rumo sul e sudeste passava por todas aquelas vilas que tanto falei nos meus post, a das casas bonitinhas, talvez como um sinal de despedida de um país e de um povo extremamente educado e gentil que me acolheu de braços abertos.

Pontarlier era o destino final de hoje, mas não sem antes passar pela simpaticíssima vila de Ornans, já no Departamento de Doubs, do pintor realista francês Gustave Courbet. Uma parada em Ornans para um dos últimos carimbos do passaporte peregrino e rumo sul novamente. Esse trecho da rota se destaca pelo acompanhamento do Rio La Loue que com suas corredeiras é propício para práticas de caiaque e pescaria. Hoje é sábado e olhava para o meu lado esquerdo enquanto pedalava e via crianças e adultos brincando nos parques espalhados às margens do rio.


►Sabia que a rota teria uma longa montanha de 5% a 6 %, mas realmente nada me tirou do sério, nem no momento que levantei para pedalar e ouvi um barulhão na parte de trás da bike. O que seria? Olha daqui, olha de lá, o parafuso do bagageiro fadigou e rompeu, o lado esquerdo do bagageiro veio abaixo. A ponta de sustentação do bagageiro entrou num dos buracos do quadro ao lado do rotor de freio e não sei como não estourou o disco. Para tudo! Tiro todos os alforges, jogo as ferramentas no chão e começo a procurar o que pode me ajudar a chegar a Pontalier - um parafuso extra, nem pensar. Peguei um cabo de aço que tinha, dei uma série de nós, amarrei-o com umas quatro abraçadeiras e parece que ficou firme, cheguei até a pensar que dava para chegar assim em Roma de tão bem feita a gambiarra.


►De volta à estrada, subi uma serra maravilhosa, já me sentia na Suíca, principalmente pela paisagem. Diversas araucárias, pedras gigantes beirando a estrada e um desfiladeiro enorme abaixo, deixando definitivamente para trás a França. Foram 12 km de subida sem parar chegando a 902 m no seu ponto mais alto num clima pitoresco de montanha.



Pontalier fica no alto da montanha, um clima friozinho e é uma cidade pequena. Era chamada de Ariólica durante o período romano.



►Chegando à vila, depois de me acomodar fui tentar resolver meu problema do bagageiro. Achei uma loja de bike a 1 km do hotel. O cara arrumou o parafuso para mim, tirou com muita dificuldade aquele monte de nó com cabo de aço que eu fiz e me cobrou € 5,00.

Depois disso fui à vila, conheci a Église Saint-Bénigne, como de costume, comprei algo para comer e passei na Informação Turística para carimbar meu passaporte. O Hôtel de Ville (acima) sempre é um espetáculo arquitetônico em qualquer vila que você passa.


► Voltei para o hotel, estava frio. Hoje eu fiquei no F1, um hotel feito com contêineres, é bem barato, ducha coletiva, não há nem toalha. Nada disso importa, tem um bom sinal de internet para eu escrever meu último post em território francês. Amanhã, Lausanne me aguarda com o guidão da bike já nas cores da bandeira da Suíca. Boa noite!


#viafrancigena #frança #suíça

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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