EP. #13 - Bar-sur-Aube / Longchamps-sur-Aujon / Rennepont / Vaudrémont / Braux-le-Châtel / Bricon /


Bar-sur-Aube, mas que nome de cidade? Pois é, mas ela existe e foi aqui que passei a noite. Fui jantar no Mc Donalds, ficava a 500 m de onde estava e me surpreendi pelos pratos diferentes. Os mesmos funcionários que atendem, lhe levam o pedido na mesa através de um número de comanda que você pode, tanto pagar no caixa como em dois totens, agilizando assim o atendimento.

Não disse no post de ontem, mas o local que eu fiquei era uma graça, uma mistura de camping e hotel fazenda. No lugar de barracas, iglus de madeira e vagões de trem feitos de quartos. Banheiros compartilhados, animais de todos os tipos espalhados, tudo muito organizado. No meu humilde iglu onde passei a noite de ontem, presenciei um verdadeiro temporal - fazia tempo que não via uma chuva tão forte. Por volta da meia noite eu acordei, daí já fica pensando naquelas inundações, tragédias, rio transbordando me levando, a bike e tudo o que tinha pela frente. Que nada, amanheceu um dia lindo e não parecia que havia caído uma simples gota d'água. No final, uma bela limpeza para as estradas, que já limpas e bem asfaltadas, ficam melhores ainda.

Saí um pouco mais tarde hoje, por volta das 9:30 hs com destino a Langres, onde iria mudar mais uma vez de Departamento, agora para Haute-Marne. Sabia que o trecho seria mais duro, então o objetivo do dia seria rodar sem muito parada, quer dizer, só se fosse numa boulangerie ou num restaurante, certo? Errado, quem disse que encontrei isso no caminho? Peguei a GR 145 (Grandes Randonnées), que consiste de uma malha de trilhas que corta o país onde se pedala, se faz trekking, se anda a cavalo, algo fabuloso e organizado. A GR 145 de hoje me levou a lugares únicos e afastados, principalmente dos carros, ufa! Passei por uma pedreira logo no km 10 (descobri finalmente onde eles moem essas pedrinhas brancas das trilhas) e depois por florestas e pistas asfaltadas entre fazendas e pequenas vilas. A vontade foi a mesma de ontem, parar e ficar admirando tudo e agradecendo por estar aqui.



►Tudo lindo e maravilhoso exceto pelo aspecto alimentar. Vi que se eu não me agilizar com algo pra comer durante os próximos trajetos, vou passar fome. Por sorte, meu kit de emergência está sempre pronto, mas hoje ele também estava deficitário e eu só tinha a geleia, pois o único pão que tinha estava duro e o joguei para os patos num rio ainda lá em Bar-sur-Aube. Meu único saco de Ensure se transformou num caso de emergência extrema então não quis utilizá-lo. O jeito foi me afogar na geleia que comprei em Canterbury; eu a comia como se estivesse comendo uma refeição completa - adiantou! Consegui cumprir o trajeto de 72 km com a geleia e o café da manhã no estômago, mas sinceramente não quero isso mais para mim. O trajeto foi rápido, como disse pouco parei. Parava para tirar fotos; quis imprimir um ritmo para não perder o passo. Foi bacana, em alguns trechos consegui manter uma velocidade média na subida interessante para que não perdesse a cadência conquistada na reta.


►Já na vila de Blessonville, aparece o segundo sinal da Via Francigena, realmente estava na rota e seguindo religiosamente o itinerário de Sigéric. Eu me senti orgulhoso!


►O outro problema de hoje foi que o trecho tinha uma altimetria maior comparado aos anteriores. Subi 850 m, parece pouco, mas não é para quem já está pedalando diariamente. A chegada em Langres foi nervosa, depois de passar por um tobogã, desci deliciosamente a uma vila chamada Saint-Martin-lès-Langres, que delícia, não? Parecia a chegada! Nem tanto, essa vila fica num vale e Langres é o oposto, fica numa colina. Sendo assim, os últimos 3 km foram interminavelmente dolorosos, as pernas queimavam, mas fiquei orgulhoso que cheguei ao Centre Ville pedalando

Não precisa nem dizer a primeira coisa que fiz em Langres, não é? Parei numa boulangerie e lá fiz a festa. Um sanduíche de peito de peru, uma coca e uma torta de morango me consumiram € 11,00. Logo em seguida, depois de achar um lugar para ficar, fui direto carimbar meu passaporte peregrino na Catedral de San Mamés, que por sinal não chega nem aos das catedrais de Arrás, Laon e Reims.


►Langres é uma cidade turística. Assim como Laon, é uma cidade fortificada e medieval e também considerada uma das 50 cidades mais lindas da França. Além do seu lado histórico, Langres possui um entretenimento relacionado a esportes aquáticos por estar muito perto de 4 grandes lagos, The Lac de la Liez, The Lac de la Mouche, The Lac de Charmes e The Lac de la Vingeanne, sendo que o primeiro consegue ser visto do alto da cidade. Langres possui 500 km de trilhas entre GR 145 e GR 7 e mais de 1000 km de rotas ciclísticas. Por sinal, teve a visita de uma etapa do Tour de France 2017. Langres é a cidade de Denis Diderot, do Iluminismo, da Enciclopédia, lembra dele do colegial? Pois é, eu também não lembrava, mas ele nasceu aqui e tem um museu dedicado.


►Bem, com tantos aspectos culturais e históricos, fiquei aflito se seria melhor passar duas noites aqui, então a melhor coisa seria ir à Oficina de Turismo e perguntar de todas as atrações, etc. Olha, tem um aspecto desse turismo comercial que não combina em nada com um peregrino indo a Roma. Após entrar na Oficina de Turismo comprei um bilhete no trenzinho turístico pela bagatela de € 6,80. A atendente elogiou meu francês e eu me sentindo orgulhoso atravessei a rua e entrei num bar para comemorar tomando um chopp e aguardando o passeio. Pois é, eu bebendo, enfim, para comemorar pode. Faltavam 30 min para o trenzinho turístico quando eu, com meu francês fora de série fui pagar a conta e a confusão se deu quando o garçom entendeu que eu queria mais um chopp. Posto à prova meu francês e com dois chopes na cabeça, me dirigi ao embarque do famigerado trem, mas cadê a fila? Já eram 18 hs, esatava no horário! Aparece então o motorista perguntando se eu tinha o tíquete do trem. Mostrei a ele e ele me encaminhou para o passeio, sim, ao passeio, eu, o motorista e o trem. O percurso de 50 minutos intermináveis passou por todos os pontos turísticos da cidade com o trem apitando e som altíssimo de descrição dos pontos turísticos. A sensibilidade dos chopes me levou a crer que todos olhavam para mim quando o trem passava - uma situação constrangedora que deve ter feito o padre Sigéric se virar no caixão de vergonha do peregrino de sua trilha. Queria descer, estava rezando para o trem quebrar no meio do caminho, mas não teve jeito, concluí o percurso. Desci do trem e decidi não queria ficar mais aqui, passei no mercado, comprei minha janta e fui para o hotel me planilhar para amanhã. Langres é muito linda, maravilhosa, mas hoje não combinou muito com um peregrino da Via Francigena.

#frança #viafrancigena

Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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