EP. #12 - Vitry-le-François / Frignycourt / Blaise-sous-Arzillières / Les Léchères / Corbeil / Les O


►Como começar um dia feliz? No meio do nada! Comecei bem cedinho, às 8:30 hs deixei a pousada em Vitry e continuei meu rumo ao sudeste da França. Saí da vila e entrei em outras, com casinhas, belas casinhas. Todas as casas têm flores, tudo é muito bem cuidado. Adoro admirar o capricho das casas por onde passo.


►Comecei a passar por muitas fazendas, só que diferentemente daquelas que passei quando estava em Trefcon, essas tinham algo especial, a estrada de terra. A estrada de terra coberta por um cascalho branco se delineava como um labirinto dentro de várias e várias propriedades com diferentes tipos de cultivo, desde girassóis, a alfazemas, uvas.


►Num determinado momento cheguei até a pensar, ah se esse GPS me deixar na mão, eu estou perdido. Realmente, não há a mínima condição de se localizar sem o GPS, as estradas de terra são pequenas, não passam ninguém. Num momento você ouve som diferente, é do "moulin à vent" e nesse momento ventava muito. Há vários enormes, um ao lado do outro e eles emitem um ruído através daquelas enormes pás.


►Parei um tempão para contemplar o que? A oportunidade de estar aqui, só e ter aos seus pés todo esse mundo. Então, mudei novamente de Departamento, passei de Marne para Aube. Essa mudança de Departamento é interessante pois vou tendo a noção que caminho para o sul, para o fim da França. Não sei se isso é bom ou ruim, estou adorando aqui, os franceses, falar francês, as vilas.


►Um pouco mais a frente, muito timidamente na estrada ela apareceu, uma plaquinha, tímida, num cantinho. Indicava Brienne-le-Château e Rome à esquerda. Foi a primeira indicação que vi aqui na França da Via Francigena, fiquei emocionado.


►Começaram a cair os primeiros pingos, hora de se encapar. Não era muito forte, mas temia raios, comecei a acelerar para chegar rapidamente a próxima vila. Alcancei Donnemant na esperança de um carimbo, mas nada. Não via uma alma viva na rua, tudo fechado.

O trajeto foi pesado nos primeiros 10 km, além da estrada de terra, a altimetria também estava judiando, minha sorte é que o tempo estava fresco, ameaçou uma chuva e parou logo em seguida.

Numa das indicações da estrada, uma cripta do século XII em Rosnay-l'Hôpital. Fui atrás, sou curioso, que nem tubarão. Cheguei exatamente às 12 hs quando o sino da igreja começou a badalar. Lindo, estava só, assinei o livro de presença, só tinha eu de brasileiro; um pelegrino da Via Francigena também havia passado por ali há algumas semanas. Tomei rumo novamente.


►Não havia, bar, restaurante, nada. Minha esperança era Brienne-le-Château, uma vila um pouco maior, mas impressionante, tudo fechado. Controlava bem a água, mas estava começando a ficar irritado com fome e num determinado momento quando alcancei La Rothière, apelei para o meu kit de emergência - pão. Pão que geralmente pego nos cafés da manhã nas pousadas com geleia que carrego comigo desde Canterbury. Comi isso para aguentar a pedalar. Tinha mais 750 ml de água, não estava tão quente assim, fui adiante. Eram mais de 60 km sem pro nada no estômago, estava me sentindo fraco. Enfim, deu uma segurada na fome, mas ainda estava atrás de um restaurante o qual só fui encontrar depois da vila Bossancourt. Já eram quase 15 hs, implorei para uma senhora recepcionista pelo "plat du jour" e ela me concedeu essa benevolência. Sentou comigo à mesa e me perguntou se fazia um caminho de peregrinação. Falei que sim, até elogiou meu francês, mas tive que cortar a conversa em nome do prato. A comida me caiu muito bem, mas estava esgotado. A próxima vila seria Bar-sur-Aube, à 5 km. Cheguei à vila e dei sorte no lugar, achei um espécie de um camping que possui iglus e vagões de trem em forma de quarto. A ducha é compartilhada, não há jantar. Por aqui fiquei, feliz por ter terminado mais uma jornada.


►Meu iglu depois dos 78 km de hoje! Boa noite!

#frança #viafrancigena #aventura

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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