EP. #7 Arras / Beaurains / Mercatel / Boyry-Becquerelle / Boyelle / Hamelincourt / Bapaume / Beaulen


Um dia completamente maluco, saí de Arras disposto a pedalar pelo menos uns 70 km. Amanheceu muito frio e a noite foi mais ou menos bem dormida. Não sei o que aconteceu comigo ontem, comecei a sentir uma sensação estranha depois do jantar, mas via que não era da comida, era algo psicológico mesmo, talvez aquela Diocese naquele momento. Eram umas 10 hs da noite, não havia uma alma viva para me socorrer naquele lugar gigante caso precisasse, então comecei a pirar nessa merda. Enfim, deitei, tentei respirar paulatinamente e fui acalmando aos poucos. Acordei diversas vezes, pensava nas pessoas que amo e que quero tanto e num determinado momento consegui dormir bem. Acordei já eram umas 8 hs, desci para o café, tudo bem, estava disposto. A pequena dor no tendão da perna esquerda tinha passado, mas mesmo assim iria usar a minha joelheira por precaução. Voltei ao quarto, arrumei minhas coisas e desci para arrumar a bike e partir, mas não antes de tirar uma foto com o recepcionista da Diocese que sempre foi muito atencioso comigo.


►Estava frio, uns 15 graus (isso é verão deles), pé na estrada em direção a Bapaume, pedalei por uma 1,5 hs e de repente um bloqueio na estrada. Puxa, como isso me lembrou uma situação que aconteceu comigo no Caminho de Santiago quando estava indo para Sangüesa. A estrada bloqueada, o GPS mandando seguir em frente e eu ali. Parei e comecei a analisar o mapa e vi uma estradinha de serviço que cortava para um outra cidade próxima. Não deu outra, estrada de terra, viraram pedrinhas, lama e um gramadão, quer dizer um pasto. Estava no meio de uma fazenda sabe lá de quem num horizonte de pasto sem fim, mas ainda existia a trilha que visualizava no mapa e embora o chato do GPS falando pra mim "volta, volta, tá errado", mandei ele calar a boca e segui meu instinto. Não deu outra, caí numa vila chamada Hamelincourt. Nada de diferente, ninguém nas ruas, tudo fechado e uma igreja. Ainda continuo a me perguntar por onde anda o povo desse país? Diferentemente da ocasião do Caminho de Santiago, dessa vez foi mais tranquilo, já nessa pequena vila e já disposto a não ter mais a "D.R.", eu e o GPS voltamos a nos falar! E ele me entendeu bem, traçou outra rota a Bapaume a partir daqui.



►Começou a ventar muito, primeiro um vento de frente, depois um vento lateral que tirava a bike do prumo e olha que eu estou pesado. Mais uns quilômetros depois, alcancei Bapaume. Merecia uma pausa, não? Fui até um bar onde tinha um monte de gente. Tinha de tudo, tinha gente tomando cerveja em plena manhã, uns caras fazendo jogo de loteria, uns velhinhos e eu. Pedi um chocolate quente, mais um, aliás, croissant e chocolate quente é fatal para as minhas manhãs. Sinto que aqui as coisas são caprichadas. Todos os croissants que comi são uma delícia, o chocolate quente sempre vem junto com um biscoitinho. Saí do bar, dei uma passada na Oficina de Turismo, onde carimbaram meu passaporte pelegrino, muito bom, agora com a estampa, Via Francigena, amei!


►Parti rumo a Péronne e no meio do caminho, mais cemitérios. Caramba! Esse era enorme, na vila de Rancourt, em homenagem aos combatentes da "Batalha de La Somme", julho de 1916. Aliás, hoje eu mudei de departamento, fui para Somme e brevemente estarei em Aisne, pelo jeito. Aproveitei a parada para mandar uma mensagem para os meus amigos europeus e todos me responderam prontamente. O Jeff falou que me aguarda em Martigny na Suiça para nos conhecermos, à Mònica só para dizer que estou vivo e se der nos encontramos em algum lugar e por último ao Alessandro que me respondeu com uma ótima notícia, que havia recebido a minha mala em Arezzo na Itália a qual eu havia despachado de Canterbury na semana passada.



►Já estava ficando cansado, não por causa da quilometragem, mas sim por causa do vento. Resolvi então parar para comer em Péronne, a próxima cidade. Parei num pequeno restaurante e por € 7,5 comi o "plat de jour" - uma coxa de frango, um refogado e um torta de manga de sobremesa. Não foi das melhores, mas deu para o gasto. Passei na Maire que era ao lado do restaurante e carimbei meu passaporte. Estava quase parando em Péronne, mas decidi continuar. Em Pérone, vi a primeira placa indicando Paris, ai que vontade, não? Deixa pra lá, vamos concentrar aqui.


►Acima, Péronne


►Continuei viagem, ventava muito, estava esfriando, comecei a entrar numa região de fazendas, não se via nada, só pasto e a rua pela qual seguida. Vi que estava próximo a Trefcon. Não se pode dizer que Trefcon é uma vila, é uma rua que deve ter uns 200 m e uma igreja. Havia uma indicação numa casa de acomodação, mas não havia ninguém. De repente, apareceu um senhor gordo que se identificou como Sr Hubert, falando um francês rapidíssimo, me levou para dentro da sua casa, mostrou-me um quarto e perguntou se gostaria de ficar. Não pensei duas vezes, fim do dia para mim, estou no meio do nada, numa casa rodeada por um pasto enorme. Há de tudo o que uma fazenda tem direito por aqui, estábulos, carros de arado, duas caminhonetes, cavalos, patos, cachorros. Fiquei meio receoso de ficar aqui, mas depois relaxei quando chegou a família do Sr Hubert, mulher e a filha. Fui para o quarto e não tive nem dúvida da primeira coisa que iria fazer - banho urgente, ah como é bom sentir a água no seu corpo. Estava na expectativa de um jantarzinho por aqui mas não vai rolar, me deram um miojão para eu fazer para não passar fome à noite. Aqui não tem jantar, não tem café da manhã, mas tem paz e tranquilidade e é disso que preciso agora.


►Entrada da vila e a casa do casal Wynand.


►A recepção, sim vim parar aqui, numa fazenda!


►Possuem 16 cavalos de criação e fabricam artesanalmente as selas.


►Hubert e Julie que me levaram para conhecer a fabricação de selas e a criação de cavalos.

#frança #viafrancigena

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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