EP. #6 Arras (dia de pausa)


Dormi num quarto bem simples na Diocese de Arras, mas com banheiro privativo. O banho de ontem foi algo fora do normal. Penso que um banho depois de se pedalar 100 km embaixo de sol e chuva me funciona como um troféu pelo percurso.

Às 19 hs desci ao restaurante para o jantar. A Diocese de Arras é muito grande e também um lugar de estudos onde muitos jovens passam o dia aqui em período integral. Às vezes, penso se existe alguma outra religião que oferece esse "suporte" para um peregrino, acho que não; talvez o Catolicismo Romano seja a única religião que oferece essa irmandade e esse acolhimento nas suas pastorais ao redor do mundo. Eu vim de uma família católica, acho que toda religião tem seus prós e contras, não sou e nunca fui um católico fervoroso mas também não tenho do que me queixar.


Vista da entrada da Diocese de Arras


Acima a Diocese de Arras por fora e abaixo por dentro


A comida do restaurante é muito boa e como sempre com a entrada, prato principal e sobremesa. Comi um fusilli com um refogado de legumes, muito bom, mas sinceramente com a fome que eu estava, devoraria qualquer coisa. Tenho a impressão que a comida por aqui, de uma maneira geral é bem balanceada, você vê que o "shape" das pessoas não é obeso, pelo contrário, não vejo obesos, diferentemente da Inglaterra. Inclusive por aqui existe uma piada que a grande contribuição dos ingleses para a culinária mundial é seu famoso "fish and chips".

Após a janta, ops, faltou uma tacinha de vinho??? Bem, queria dormir cedo, pois queria descansar. Fechei totalmente a veneziana e o quarto ficou um breu total. Capotei direto, devo ter sonhado muito, mas não lembro nada. Acordei de manhã com o mesmo breu, mas já eram 8:50 hs e o café da manhã terminaria às 9 hs. Coloquei uma calça voando e desci correndo para o refeitório, que quase já fechando me atendeu.

Passei toda a manhã dando uma revisada em todo o roteiro e pesquisando as vilas por onde passarei. Estou tentando me planejar sempre com dois dias de antecedência porque nunca se sabe o que pode mudar a trajetória do seu caminho. Sei que aqui na França não vou dormir na rua, porque me orientaram, caso não ache abrigo, ir direto à prefeitura (La Maire ou Hôtel de Ville), pois estes têm a obrigação de lhe oferecer um sítio. Aqui, se viajante, turista ou peregrino dormir na rua, pega mal para a cidade e para o prefeito da comunidade, segundo dizem. Mesmo assim, viajo com objetivo, mas leve, sem cobrança ou compromisso. Então depois de ajeitar o roteiro, passei para a parte de manutenção, pois depois de tanta chuva ela estava precisando um trato de carinho, não? Desci com óleo, desengraxante, paninho e deixei a menina do jeito para a estrada de amanhã.

Almocei, arrumei minhas coisas e fui conhecer um pouquinho de Arras. Arras é a capital administrativa e econômica do Departamento de Pas-de-Calais, dista 162 km de Paris e não tem mais do que 50.000 habitantes. Arras é muito famosa pelas praças de estilo barroco e por possuir 225 edificações tombadas.

O recepcionista da Diocese me orientou que havia um micro-ônibus gratuito que passava aqui na rua de trás que poderia me levar ao centro. Comecei a caminhar pela rua quando vi o micro-ônibus, comecei a correr, a motorista me aguardou e quando entrei um monte de velhinhos. Eles se entusiasmaram em falar comigo, às vezes eu me sinto um ET, mas dessa vez não deu para ter muito diálogo pois uma combinação de surdez com meu francês plus ou moins nos levou a uma sessão biblioteca.

Desci na Catedral de Arras e que catedral, enorme, linda por dentro. Havia um exposição sobre a história do papado. Fiquei bastante tempo, tirei fotos, rezei e fui até uma lojinha onde dois senhores bem de idade estavam atendendo. Lá eu me identifiquei, pedi o carimbo e eles me mostraram um mapa belíssimo com todas as rotas de peregrinação da Europa. O mapa era enorme, mas resolvi encarar (qualquer que seja o grama, estou pensando duas vezes para carregar) e levar, não um, mas dois, o segundo para alguém especial.


Acima e abaixo fora e dentro da Catedral de Arras. Infelizmente, a grande lente angular da câmera menospreza o tamanho real do monumento do séc. XVIII


Saí da Catedral e fui a praça do famoso Breffroi (erguido entre 1463 e 1564) e Hôtel de Ville, constituído por um lindo conjunto arquitetônico em flamboyant gótico do final do século XVI. Completamente destruídos em 1914, foram reerguidos por um arquiteto chamado Pierre Paquet e reinaugurados em 1932. A Place de Héros, onde estão localizados, é uma linda praça com vários restaurantes e mais uma igreja ao fundo. Tomei um chocolate quente por lá e voltei a pé para Diocese.


Acima a Place de Héros e abaixo a vista do Breffroi e Hôtel de Ville



Fim do dia, acho que deu para descansar para reiniciar a jornada amanhã. É bom ter esse tempo, sem correria, dando um tempo para o corpo se recuperar, mas não sem antes tirar uma foto d e uma linda igreja ao redor da praça.


►Boa noite, amanhã tem mais!

#frança #viafrancigena

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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