EP. #3 Canterbury / Bramling / Staple / Eastry / Northbourne / Whitfield / Buckland / Dover / Englig


►Uma noite tensa na minha parte debaixo do beliche enquanto uma americana enorme chacoalhava de um lugar para outro na parte de cima, colocando à prova toda a estrutura do conjunto. Tive um pesadelo, sonhei que minha cicloviagem tinha terminado da maneira mais esdrúxula possível, ou seja esmagado pelo estrado de madeira vindo abaixo pelo peso da americana gorda; o sonho foi muito real, apareceram até aquelas ambulâncias inglesas escandalosas me levando para o pronto socorro, uma tragédia. Era o fim! Acordei subitamente, tenso, pensei em desenrolar meu saco de dormir e ir para o chão, mas minha confiança de engenheiro apalpando o material inglês e crendo que o ensaio de fadiga dele tinha sido atestado por aquelas empresas britânicas de renome, decidi ficar por ali mesmo. Ainda sim, acordei 5:30 hs já com o dia claro.


Fui direto a Catedral de Canterbury assistir a missa...


...e conforme agendado, posterior encontro com o padre, mas não era um padre e sim uma madre tocando com toda imponência a cerimônia assistida também por seus súditos, padres. Um viva à igualdade de gênero católica! Nunca tinha visto isso! Comunguei, tomei a hóstia, assim como o "sangue de Cristo", opa, vinho do bom! Canon Clare é uma senhora muito simpática conversou comigo e pediu para eu respeitar os limites do meu corpo durante a minha jornada. Fez uma linda oração comigo em frente ao altar antes da minha partida, carimbou meu passaporte, mostrou-me a pedra fundamental, marco zero da Via Francigena e se foi. Eram 9 hs da manhã quando o sino badalou e anunciou a minha saída, muito emocionante. Queria partir, mas também queria ficar, me senti acolhido e muito bem recebido em Canterbury. Parti destino Dover.


►Sair de Canterbury é fácil, o difícil é andar nessa mão esquerda. Levo um tempo pra me acostumar até encontrar um carro de frente o qual o motorista me fez uma cara de poucos amigos - voltei pra esquerda. O trajeto foi tranquilo, com poucas oscilações. O GPS me guiou por estradas que passam por pequenos vilarejos, algumas igrejinhas e uma ciclovia ao lado da autopista A2. Cruzei speedeiros durante o percurso e a gritaria quando um carro se aproxima é a mesma do Brasil, só que em inglês: "car"


Cheguei a Dover, parei na primeira igreja que cruzou meu caminho. Encontrei uma senhorinha saindo da capela e pra ela perguntei onde carimbava meu passaporte. Ele me disse que o padre não estava mas morava na casa ao lado e eu poderia ir lá e tocar a campainha. E disse: não só toque, mas toque durante muito tempo porque o padre é surdo. Ela reparou que eu fiquei meio sem jeito então decidiu me acompanhar e assim enterrou o dedo na campainha por mim. Abriu a porta um senhor negro com cara de sono que me disse que era novo na paróquia e não sabia de carimbo, muito menos o que tinha que carimbar. A senhorinha simplesmente invadiu a casa do pároco e saiu a procurar o carimbo por todo lado: "there is a stamp anywhere!" e voltou com uma chanceladora e me perguntou: serve? Enfim, chancelado meu passaporte continuei até o embarque para o ferry.


£ 30 para Calais e um tempão de espera. Tudo muito organizado para a bike que tem prioridade no embarque assim como as motos. Encontrei dois motoqueiros que me perguntaram pra onde ia. Falei que seria Roma e um deles me falou: nossa, quando pretende chegar lá, no Natal? Também perguntei para onde os dois estavam indo e eles me disseram: sem destino, era para onde o vento soprar! Assim, embarquei rumo a Calais.

O ferry é um grande navio, nunca vi sair tanto carro e ônibus dentro de um só lugar, é muito grande. Minha bike foi sozinha num canto do navio.


Enfim França, onde passarei a maior parte do meu tempo. Saindo do ferry, prioridade total para a bike; ônibus, carros e caminhões me esperaram descer a rampa. Entretanto tão logo saí da rampa, mandaram-me parar e aguardar. O que vinha por aí? E apareceu! Um carro pra me escoltar até a saída, vai entender o porquê mas fiquei feliz pois nem o GPS sabia a direção, o porto de Calais é gigante. Acabei apenas passando por Calais, tirei algumas fotos e fui em direção a Guînes, minha primeira parada. No meio do caminho, uma preocupação, a bateria do GPS estava morrendo, tinha mais uns 8 km pra alcançar a cidade e se não fizesse isso a tempo, o percurso teria que ser na unha. Saindo de Calais e já a 5 km de Guînes cruzei uma linda igreja, mas completamente vazia para o carimbo do meu passaporte.


Consegui alcançar Guînes antes do GPS morrer e fui direto à pousada da Catherine. Muito simpática, me mostrou os aposentos, perguntou se queria que reservasse um jantar num restaurante, realmente muito receptiva. Até que eu arranhei bem o francês. O detalhe que estou sentindo é que eles preferem que fale francês mas se você começar a enrolar demais, eles apelam pro inglês mesmo.


►Acima, igreja na pequena Guînes

Bem, acabei minha noite (ainda está sol) num restaurante perto de um camping.

Quero descansar, estou pedalando pouco esse começo, não quero me lesionar. Hoje foram 60 km de pedal mais 40 km de travessia. Amanhã tem mais, vou tentar chegar à Wisques, uma vila que ninguém conhece por aqui, vamos ver o que me aguarda.

#viafrancigena #frança

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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