Doutor Girão explica:

 

“Clown”, no inglês, segundo Ruiz (1987) está ligado ao termo camponês clod, ao rústico, à terra. Enquanto “palhaço” vem do italiano paglia (palha), utilizada para revestir colchões: a roupa do palhaço era feita de tecido do colchão, grosso e listrado. Existe uma origem de “palhaço” na língua celta, que designa um fazendeiro, tido como um indivíduo desajustado e engraçado, aos olhos do povo da cidade (ULANOV, 1977). Mas se costuma dizer que não há nenhuma diferença entre a palavra “palhaço” e a palavra “clown”, pois as duas convergem para essências cômicas.

Segundo Puyuelo ([1973] 1987, p. 53), o palhaço

[...] desencadeia a excitação, testemunha os desejos libidinais e agressivos, porém os inocenta através da participação do outro na comunicação do riso.

Fellini (1983, p. 105) pontua:

O clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós. É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê a sua imagem torpe. É a sombra. O clown sempre existirá. Pois está fora de cogitação indagar se a sombra morreu, se a sombra morre. Para que ela morra, o sol tem de estar a pique sobre a cabeça. A sombra desaparece e o homem, inteiramente iluminado, perde seus lados caricaturescos, grotescos, disformes.

De acordo com Lopes (1990, p. 169),

[...] para encontrar o germe do clown, é preciso descobrir as nossas falhas como seres humanos, é necessário desnudar o ator na busca da aceitação de seu lado ridículo e de tudo aquilo que nos torna ridículos aos olhos dos outros.

Burnier (1994, p. 263) complementa:

[...] o difícil está aí: não interpretar, mas ser. A máscara do clown, o nariz, é a menor do mundo, a que menos esconde e mais revela.

Assim, a relação com o público se define quando o ator, mediante uma renovação contínua de sua atitude pessoal, chegará com seu corpo à socialização com o outro e sempre será de “amarás a teu próximo” (BARBA, 1991, p. 137). Dessa forma, a técnica do clown é determinada e orientada pela base de relação com o público (WUO, 1999).

Outra característica é a própria persona do palhaço. Sobre isso, Masetti (1998, p. 39) explana:

O palhaço pode ser representado por duas figuras, de acordo com sua atitude, chamadas de branco e augusto. A primeira é representada por seu comportamento inteligente, lúcido, elegante, perfeito. A segunda, ao contrário, comporta-se atrapalhadamente, é desajeitada e imperfeita em suas tentativas de realizar o que deseja. O branco e o augusto representam duas atitudes psicológicas do homem: a razão e o instinto, a perfeição e a imperfeição, o certo e o errado.

A linguagem artística e o processo criativo do palhaço consistem na base da relação que é estabelecida com o outro, em que resultam descobrimentos pessoais e revelações tanto humorísticas como cômicas e mesmo chistosas. Conceitos de difícil entendimento na psicanálise. Quanto à composição de seu processo criativo, o palhaço pode usar qualquer um desses mecanismos do riso. Contudo, cada palhaço tem sua maneira singular de transpor tal lógica.

Para Freud ([1927] 1980), o processo humorístico é representado tanto para o eu do indivíduo que faz a atitude humorística quanto para o outro, ocasionando uma produção semelhante de prazer em ambos. O criador da psicanálise, assim, traduz o humor como algo rebelde, mas com grandeza e elevação, sendo, portanto, liberador ao tratar da crueldade dos acontecimentos reais. Por fim, deixa uma pergunta: Em que consiste a atitude humorística? Para ele, o humor é a sabedoria de rir do próprio sofrimento humano ou mesmo da possibilidade da morte.

Sobre o cômico, Freud ([1905] 1980, p. 20) diz:

[...] aquilo que, em certo momento, pareceu-nos ter um significado, verificamos agora que é completamente destituído de sentido. Eis o que, neste caso, constitui o processo cômico.

A comicidade como um fator inusitado determinado por um nonsense. Sendo assim, um efeito de imagem, situação ou cena que disfarça o espírito, mostra certo automatismo psíquico e revela o sujeito do inconsciente.

Quanto ao chiste, Freud ([1905] 1980) enfatiza que sua estrutura tem a ver com a linguagem e se caracteriza por três “pessoas”: a primeira a que conta a piada, a segunda aquela que é alvo da história, e a terceira que é o ouvinte. Nesse sentido, Freud ([1905] 1980, p. 168) acrescenta: “[...] um chiste é a mais social de todas as funções mentais que objetivam a produção de prazer”.

Desse modo, trazer essa reflexão do riso em jogo tanto com o humor quanto com o cômico, permite ao mesmo tempo envolver o chiste, em se tratando de linguagem e laço social. É interessante o comentário de Slavutzky (2005, p. 209) sobre a confusão que Freud faz em relação à piada e ao humor, “[...] ao escrever que é próprio do humor fazer uma piada”.

Freud ([1927] 1980) chega à conclusão de que o prazer no chiste advém de uma economia da inibição; o cômico, da ideação, e o humor, do sentimento. Porém, parece mesmo que não há diferenças quanto ao resultado esperado diante de tais processos. O que resulta é o riso.

Talvez o maior efeito esteja no riso como potência a se conquistar, nessa intenção vazia e artística do palhaço. Poderia ser dito que o riso seria o clímax dos encontros de cada sujeito com essa figura, além de várias conexões desencadeantes, delineando um espaço que se permite estabelecer.

O palhaço lida com o erro, declarando e assumindo o seu ridículo e é recompensado com o riso e a continuidade da vida.

Fonte: O palhaço, a psicanálise e o sujeito na contemporaneidade, Juscelino Moreira de Assis, coautoras:
Terezinha de Camargo Viana, Daniela Scheinkman Chatelard, Márcia Cristina Maesso.